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Ciência09 de out. de 2026, 10:51

Físicos entrelaçam bolinha de vidro com luz à temperatura ambiente

Equipe da Universidade de Florença conseguiu emaranhar quanticamente o movimento de uma nanoesfera de vidro com a luz, sem resfriamento criogênico. O avanço é confirmado; usos como memória quântica ainda são especulação.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: a esfera de vidro usada no experimento tem cerca de 100 nanômetros de diâmetro — menor que a maioria dos vírus, mas ainda composta por dezenas de milhões de átomos. É nesse objeto, visível apenas sob instrumentação de laboratório, que uma equipe de físicos conseguiu produzir algo que até pouco tempo soava como ficção científica: um emaranhamento quântico estável entre um pedaço de matéria sólida e a luz, funcionando à temperatura ambiente.

O que foi confirmado

O experimento, liderado por Francesco Marin, do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Florença — na Itália, em colaboração com o Instituto Nacional de Óptica do CNR (CNR-INO), o Instituto Nacional de Física Nuclear (INFN) e o Laboratório Europeu de Espectroscopia Não-Linear (LENS) —, foi publicado na revista Science em 7 de outubro de 2026, sob o título "Stationary entanglement of a levitated oscillator with an optical field", assinado por Quentin Deplano e colegas.

Foto: reprodução/phys.org

Na prática, a nanoesfera de vidro é suspensa no vácuo por uma pinça óptica — um feixe de laser altamente focado que a sustenta pela pressão da radiação — dentro de uma cavidade formada por dois espelhos. Dois lasers de frequências levemente diferentes entram em ação: um resfria e estabiliza as oscilações da esfera, aproximando-a do estado quântico fundamental; o outro gera o emaranhamento propriamente dito. O resultado é que as vibrações da esfera deixam uma marca mensurável na luz que escapa da cavidade, e essa luz carrega consigo a correlação quântica para fora do sistema, podendo em princípio ser transmitida e medida a distância. É a primeira vez que esse tipo de entrelaçamento persistente entre um objeto levitado e luz viajante é demonstrado sem resfriamento criogênico.

O que ainda é hipótese

As aplicações mais chamativas — como o uso desse tipo de sistema como memória quântica, capaz de armazenar e recuperar informação, ou como peça de redes de comunicação quântica segura — não foram demonstradas no estudo. São extrapolações discutidas pelos próprios autores e por outros físicos consultados pela imprensa especializada, baseadas no potencial técnico do método, não em um dispositivo funcional já testado.

Para a comunidade de física quântica, o feito tem valor duplo: serve como teste rigoroso dos limites entre o mundo clássico e o quântico em escala mesoscópica e sugere um caminho mais barato — sem a necessidade de criostatos complexos — para experimentos futuros nessa fronteira.

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