
Flock admite abuso por policiais e reduz retenção de dados de placas
Após reportagem apontar policiais usando câmeras da Flock para perseguir ex-parceiros, o CEO Garrett Langley admitiu erro e anunciou auditoria obrigatória e retenção de dados mais curta.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
A Flock Safety, empresa americana que fornece câmeras de leitura automática de placas (ALPR) para milhares de departamentos de polícia nos Estados Unidos, anunciou uma série de mudanças em seu sistema depois que uma investigação do Washington Post revelou casos de policiais usando a ferramenta para localizar ex-parceiros e outras pessoas fora do contexto de investigações legítimas. Segundo a apuração, ao menos 46 policiais foram acusados de acessar indevidamente os dados da Flock para fins pessoais, não investigativos.
Em entrevista ao The Verge, o CEO e fundador da empresa, Garrett Langley, fez um mea culpa público. "Erramos nisso", afirmou o executivo, reconhecendo que a empresa vinha tratando como opcionais recursos de auditoria que deveriam ser obrigatórios desde o início.
Quem é afetado
O caso atinge diretamente os departamentos de polícia clientes da Flock, hoje uma das maiores redes de vigilância por câmeras de placas dos EUA, e os cidadãos cujos deslocamentos são registrados pelo sistema. A repercussão negativa já levou algumas cidades a cancelarem contratos com a empresa, em meio a um debate mais amplo sobre os limites da vigilância automatizada usada por forças de segurança.
O que muda
A principal mudança é na retenção de dados: o prazo padrão para guarda das informações de movimentação captadas pelas câmeras cai de 30 dias para sete. Departamentos que quiserem manter os dados por mais tempo precisarão justificar a solicitação com um número de caso vinculado a uma investigação em andamento — exigência que antes era opcional e passa a ser obrigatória.
A empresa também vai colocar em operação plena o recurso "Audit Assistance", que identifica automaticamente buscas com comportamento anormal e pode bloquear o acesso do usuário até revisão administrativa. Langley disse ainda que defende que reguladores estaduais exijam auditorias e mecanismos de detecção de uso indevido em toda tecnologia usada por policiais, com penalidades mais duras para abusos.
A reação de entidades de defesa de privacidade foi mista. Chad Marlow, da ACLU, chamou as mudanças de "pequenas e incrementais" e disse que uma semana de retenção ainda está acima do recomendado pela organização, de 48 horas. Para Marlow, o problema de fundo não é apenas o abuso individual, mas a escala da própria rede de vigilância.
Atualização (13/08, 19:01): Atualização (13/08/2026): Especialistas ouvidos pela imprensa americana dizem que as novas medidas técnicas anunciadas pela Flock não resolvem o problema de policiais que usam o sistema de câmeras para perseguir ex-parceiros. Chad Marlow, conselheiro de políticas sênior da ACLU, afirma que a empresa está "absolutamente sem vontade de fazer as mudanças reais que precisa fazer" e que o problema vai além do abuso individual, envolvendo o uso do sistema para investigar cidadãos sem antes estabelecer suspeita de crime.
Segundo Marlow, salvaguardas anteriores já foram dribladas por agentes: quando a Flock passou a exigir que policiais justificassem cada busca, alguns preencheram o campo com termos genéricos como "investigação" ou zombaram da exigência — em um departamento de polícia do Oregon, agentes digitaram "hehehe" vinte vezes. Como a empresa não verifica os números de caso informados nas buscas, a nova exigência de vincular consultas a um número de ocorrência também poderia ser burlada com a mesma facilidade. Já a ferramenta de auditoria automática, que sinaliza buscas suspeitas, continua opcional para os departamentos e só identifica o abuso depois que ele ocorre.
O próprio CEO da Flock, Garrett Langley, reconheceu os limites da tecnologia diante das críticas: "Não vamos mudar os seres humanos, e seres humanos tomam más decisões. O que podemos fazer é garantir que eles saibam que, se usarem essa ferramenta, serão responsabilizados." Para especialistas e organizações como a ACLU, porém, a raiz do problema está na cultura de baixa responsabilização dentro das corporações policiais — e não em uma falha corrigível apenas com ajustes de software.
Atualização (13/08, 21:53): Atualização (14/08/2026): A Flock anunciou que sua ferramenta "Audit Assistance", lançada em abril de 2026, se tornará obrigatória para todos os clientes até o fim do ano — mais de um terço já a adotou voluntariamente. A funcionalidade promete detectar atividade anormal nos sistemas de leitura de placas e sinalizá-la para revisão de administradores, podendo até bloquear automaticamente usuários flagrados.
A empresa afirma que a ferramenta já ajudou a flagrar abusos reais: em agosto de 2026, o xerife David Davis, do condado de Bibb, creditou o Audit Assistance por revelar que três policiais usavam o sistema da Flock para rastrear pessoas com quem tinham relacionamento pessoal.
Apesar do anúncio, a Flock não detalhou publicamente como a ferramenta funciona nem quais critérios usa para sinalizar buscas suspeitas. Especialistas ouvidos pela reportagem, como Chad Marlow (ACLU) e Rachel Levinson-Waldman (Brennan Center), afirmam que não há evidências de que a ferramenta funcione de forma consistente e que faltam dados sobre taxas de falsos positivos, cobrando uma auditoria independente antes de qualquer conclusão sobre sua eficácia.