
Flock Safety: CEO pede 'compromisso' após escândalos de vigilância nos EUA
A empresa dona da maior rede de câmeras leitoras de placas dos EUA enfrenta processos, cancelamento de contratos por dezenas de cidades e cobrança de senadores após casos de policiais usando o sistema para perseguir ex-parceiras.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
A Flock Safety, empresa americana que construiu uma das maiores redes de vigilância privada dos Estados Unidos — mais de 120 mil câmeras de leitura automática de placas (ALPR, na sigla em inglês) instaladas em ruas de todo o país —, está sob pressão crescente depois de uma série de casos de uso indevido de sua tecnologia por policiais.
Uma investigação do Washington Post identificou 46 casos em que agentes de segurança usaram o sistema da Flock para fins não autorizados, incluindo o rastreamento de ex-companheiras. Diante da repercussão, o CEO Garrett Langley chegou a se desculpar publicamente com uma das vítimas em entrevista à CBS News: "Isso me mata. Ela passou por algo horrível", disse.
Em entrevista à Fox News, Langley defendeu que o debate sobre a tecnologia não deveria opor privacidade e segurança pública: "Quando as pessoas falam de apenas uma dessas coisas, privacidade ou segurança, estão priorizando a coisa errada. O que precisamos priorizar como país é o compromisso." Ele insiste que a empresa não criou os abusos policiais, apenas os tornou visíveis, e pede que estados criem leis que tornem crime o uso indevido dos dados coletados pelas câmeras.
Quem é afetado
A reação já saiu das ruas e chegou ao Congresso americano. Do lado democrata, o senador Bernie Sanders propôs banir a tecnologia, e o pré-candidato ao Senado por Michigan, Abdul El-Sayed, também criticou a empresa. Do lado republicano, o deputado Tim Burchett (Tennessee) e outros dois colegas apresentaram um projeto para proibir o governo federal de comprar o sistema.
No campo local, o impacto é ainda mais concreto: segundo o grupo DeFlock, ao menos 68 cidades cancelaram contratos, desativaram câmeras ou baniram o ALPR desde 2021, sendo 39 casos só nos primeiros meses de 2026 — cidades como Mountain View e El Cerrito, na Califórnia, encerraram os contratos neste ano. A empresa também responde a uma ação coletiva movida pelo escritório Gibbs Mura, que acusa a Flock de compartilhar dados de placas de californianos com agências de fora do estado, em violação à lei de privacidade de ALPR da Califórnia.
Em resposta às críticas, a Flock reduziu o prazo padrão de retenção de dados de 30 para 7 dias e passou a exigir um código de caso para acessar registros — mudanças que, no entanto, podem ser revertidas pelos próprios órgãos que usam o sistema.
O que fica de lição
O caso é americano, mas serve de alerta para o debate brasileiro sobre videomonitoramento urbano e reconhecimento facial, cada vez mais comum em cidades e estados do país. Tecnologia de vigilância sem regras claras de acesso, auditoria e retenção de dados tende a ser usada além do que foi prometido — e a responsabilidade não pode recair só sobre quem opera as câmeras, mas também sobre quem fiscaliza o contrato público.