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Ciência25 de ago. de 2026, 22:29

Fornecedores de anticorpos venderam imagens manipuladas por anos

Levantamento identificou quase 19 mil imagens de validação com sinais de fabricação em catálogos de pelo menos 15 empresas de insumos de laboratório, incluindo Thermo Fisher e Abcam.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Quase 19 mil imagens sob suspeita

Para comparação: é como se, catálogo após catálogo, um a cada punhado de anticorpos vendidos a laboratórios do mundo todo viesse acompanhado de uma imagem de validação falsificada. Um levantamento divulgado em 25 de agosto catalogou perto de 19 mil imagens de autenticação de anticorpos com sinais de adulteração ou fabricação, espalhadas por pelo menos 15 empresas fornecedoras de insumos de laboratório — entre elas nomes conhecidos como Thermo Fisher Scientific, Abcam e Sigma-Aldrich (da MilliporeSigma).

Como começou

A descoberta nasceu de um achado pontual: em 17 de maio, o pesquisador Sholto David identificou uma única imagem fabricada no catálogo de anticorpos da Thermo Fisher. O caso chamou a atenção de Reese Richardson, pesquisador de desinformação científica da Northwestern University, que passou a vasculhar sistematicamente as bases de dados dos fornecedores. Em poucos dias, o número saltou para mais de 100 imagens problemáticas só na Thermo Fisher; até 3 de junho, já eram mais de 450 na empresa, além de um caso na Abcam. O rastreamento culminou no relatório de agosto, que ampliou a varredura para outras 14 empresas.

O que está confirmado

Das quase 19 mil imagens catalogadas, 13.800 compartilhavam um entre apenas sete fundos ("backgrounds") diferentes — muitas vezes reaproveitados por fornecedores distintos. Esse padrão é o dado mais concreto do levantamento: a repetição do mesmo fundo em produtos de empresas concorrentes sugere que as imagens podem vir de um fornecedor comum em algum ponto da cadeia de suprimentos, e não de testes reais feitos por cada empresa. Os tipos de manipulação identificados incluem bandas de Western blot duplicadas — às vezes rotacionadas ou espelhadas —, recortes colados sobre fundos diferentes e áreas do blot pintadas ou obscurecidas para esconder inconsistências.

O que ainda é hipótese

Quem exatamente produziu e distribuiu essas imagens ao longo da cadeia de fornecimento continua sem confirmação. Seis das 15 empresas contatadas responderam aos pedidos de comentário e disseram que vão revisar seus catálogos, mas nenhuma retratação formal de produto foi registrada até agora. Richardson resume o problema: "não há circunstância em que isso aconteceria naturalmente em uma imagem". Paul Jenkins, da Universidade de Michigan, foi mais direto sobre o impacto: "não fiquei surpreso que os anticorpos sejam ruins. O que me surpreendeu foi que esses blots pareçam ser fabricados". Já Jim Woodgett, do instituto Lunenfeld-Tanenbaum, classificou a prática como algo que "não é tolerável de forma alguma" e que "passa exatamente a mensagem errada" à comunidade científica.

Por que isso importa

Anticorpos mal validados já eram um problema conhecido: um estudo de 2023 apontou falha em cerca de 50% dos testes de especificidade entre 614 anticorpos analisados. Pesquisadores gastam, ao longo da carreira, de milhares a dezenas de milhares de dólares nesses insumos — e imagens de validação fabricadas dificultam ainda mais saber se o produto funciona como anunciado, com potencial de comprometer experimentos financiados com dinheiro público.

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