tech & talk
MercadoSmart Cities08 de set. de 2026, 10:27

Frio e gás de Vaca Muerta fazem Patagônia disputar data centers de IA

Projetos que somam bilhões de dólares e milhares de megawatts miram a Patagônia argentina, atraídos pelo clima frio, gás abundante e incentivos fiscais do governo Milei. OpenAI, Pampa Energía, FlexDomes e Green Capital já anunciaram planos na região.

Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado

Compartilhar

US$ 25 bilhões é o número que resume a aposta

A cifra é do projeto batizado Stargate Argentina, carta de intenção assinada pela OpenAI e pela distribuidora local Sur Energy para erguer um data center de 500 megawatts (MW) na Patagônia. É o maior compromisso já anunciado na corrida por infraestrutura de inteligência artificial na região e sintetiza por que a ponta sul da Argentina virou destino cobiçado por investidores globais.

Frio, gás e terra vazia

Foto: reprodução/forbes.com.br

A disputa mundial por data centers de IA esbarra em dois gargalos: energia e refrigeração. A Patagônia oferece as duas coisas de graça, na visão dos investidores — temperaturas baixas que reduzem o custo de resfriamento dos servidores e proximidade com Vaca Muerta, uma das maiores formações de gás de xisto do mundo, que garante energia abundante e barata.

A Pampa Energía, maior geradora elétrica da Argentina, avança com um projeto de até 500 MW ao lado da usina termelétrica de Loma de la Lata, em Neuquén. Segundo Rubén Turienzo, executivo da companhia, "nós começamos a perceber que havia um interesse um pouco mais firme" entre potenciais clientes. A empresa cotiza preços de energia a interessados e mira fechar os primeiros acordos até o fim de 2026, começando por projetos-piloto de 20 MW a 40 MW antes de escalar. A infraestrutura elétrica para atender 500 MW deve custar quase US$ 900 milhões.

Foto: reprodução/datacenterdynamics.com

Outros dois projetos reforçam o movimento: a FlexDomes, empresa americana de data centers sustentáveis, planeja uma primeira fase de 120 MW em Neuquén, com investimento de US$ 1,4 bilhão; e a polonesa Green Capital projeta uma instalação em Chubut que começa em 300 MW e pode chegar a 3.000 MW, com aporte de US$ 3 bilhões.

Quem ganha e os riscos pela frente

O governo de Javier Milei usa o regime RIGI — que oferece isenções fiscais e estabilidade regulatória a grandes investidores — como isca para atrair essas empresas, num esforço que incluiu reunião com executivos de tecnologia no Vale do Silício. "Dois anos atrás, ninguém falava sobre a Argentina", resume Steve Sasse, da consultoria americana datacenterHawk, especializada em imóveis para data centers. Já o empresário Martin Varsavsky descreve o momento como um marco simbólico: "foi como fincar a bandeira argentina, dizendo: 'aqui existe um país com energia abundante'".

Apesar do entusiasmo, nenhum dos projetos tem localização definitiva fechada nem obras iniciadas, e a maior parte dos investimentos segue em fase de negociação ou estudo de viabilidade. A Argentina ainda concentra apenas data centers pequenos, em Buenos Aires, e disputa espaço com vizinhos que já saíram na frente — Chile, com a Amazon, e Uruguai, com a Alphabet. Resta saber se a promessa de energia farta e clima favorável vai se converter em servidores ligados ou ficará no papel.

data centersinteligência artificialargentinaenergiapatagônia
Compartilhar