
Fuligem já responde por até 1/3 do derretimento no Himalaia
Modelagem da Academia Chinesa de Ciências associa carbono negro de carros, termelétricas e fábricas ao colapso acelerado das geleiras do Hindu Kush-Himalaia.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana:
As geleiras do Hindu Kush-Himalaia hoje perdem cerca de 72 centímetros de espessura por ano — quase o dobro do ritmo registrado décadas atrás. E uma fatia relevante desse derretimento não vem só do aquecimento do ar: vem de fuligem.
O que está confirmado
Uma modelagem da Academia Chinesa de Ciências, instituição estatal que reúne os principais institutos de pesquisa do país, estimou que o carbono negro — fuligem liberada por escapamento de carro, termelétrica a carvão, óleo diesel e fábricas do Sul da Ásia — respondeu por até um terço de toda a perda de massa glacial no Himalaia entre 2007 e 2016. O mecanismo é conhecido: a camada escura sobre o gelo reduz o efeito albedo, a capacidade da neve de refletir luz solar. Neve limpa em alta altitude reflete até 90% da radiação; com fuligem e poeira por cima, essa reflexão cai bastante e o gelo absorve mais calor.
Dados da ONU mostram que as geleiras das montanhas nepalesas encolheram um terço em 30 anos. Um estudo de 2023 do Instituto Indiano de Meteorologia Tropical já havia flagrado o efeito contrário: durante os lockdowns de 2020, com menos poluição no ar, o derretimento caiu até 40%.
O que ainda é projeção
Pesquisadores como Marco Tedesco, do Observatório Terrestre Lamont-Doherty (Universidade Columbia), e Dipesh Chapagain, da Universidade das Nações Unidas, alertam que a região pode perder até metade da cobertura glacial até o fim do século — mas esse número depende de cenário de emissões e ainda é projeção, não fato consumado.
Por que isso importa agora
O tema ganhou urgência depois das enchentes fatais no Nepal, no fim de agosto, que deixaram milhares de desaparecidos. Enchentes de origem glacial já aumentaram cinco vezes por década desde os anos 1950, segundo os estudos citados pelos cientistas. O ciclo se retroalimenta: o derretimento expõe camadas antigas de poeira, que aceleram ainda mais o degelo seguinte.