tech & talk
MercadoIA09 de out. de 2026, 11:03

Fundição secreta de Musk pode adiantar em 18 meses turbinas de data centers

A SpaceX está erguendo uma fundição própria no Texas para fabricar pás de turbinas a gás e driblar a fila de anos nas poucas fabricantes mundiais do componente. A manobra promete acelerar a energização de data centers de IA, mas esbarra em processos ambientais contra a xAI em Memphis.

Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado

Compartilhar

O número que importa

São 830 acres de terreno comprados entre março e junho em Bastrop, no Texas, bem ao lado da fábrica da Starlink — e é ali que a SpaceX está erguendo uma fundição secreta para fabricar, por conta própria, pás e palhetas de turbinas a gás. Segundo a reportagem do TechCrunch, a aposta de Elon Musk é cortar em até 18 meses o tempo necessário para energizar novos data centers de inteligência artificial, hoje reféns de uma fila de anos nas poucas fabricantes mundiais do componente.

Por que a pá da turbina virou gargalo

Foto: reprodução/techcrunch.com

O desafio técnico explica a escassez: apenas um punhado de empresas no mundo domina em escala industrial o processo de fundição em cristal único, usado para produzir pás capazes de suportar as seções mais quentes da turbina, que operam entre 3.000°F e 3.600°F — cerca de 800 graus acima do ponto de fusão da própria liga metálica. Os pedidos dessas fabricantes já estão esgotados por anos, e a GE Vernova, uma das maiores fornecedoras globais de turbinas, "essencialmente esgotou" sua capacidade de produção até 2030, segundo o TechCrunch. Enquanto isso, a demanda projetada de eletricidade para data centers deve dobrar até 2030, pressionando SpaceX, xAI, Tesla e rivais como Amazon, Google, Meta, OpenAI e Microsoft a buscar soluções alternativas de energia.

Quem ganha

Se a fundição funcionar, Musk corta a dependência externa e ganha velocidade para energizar os data centers que alimentam a xAI, a startup de inteligência artificial do bilionário, e os próprios projetos de infraestrutura da SpaceX. É um atalho competitivo num setor em que meses de atraso significam perder a corrida da IA.

Quem perde — e processa

O custo aparece em Memphis, no Tennessee, onde a xAI opera dezenas de turbinas a gás desde 2024 para alimentar seu supercomputador Colossus. A organização de direitos civis NAACP (associação histórica americana de defesa da população negra) moveu uma ação judicial alegando que a empresa rodou os equipamentos sem as licenças federais exigidas pelo Clean Air Act. Segundo a entidade, cada turbina tem potencial de emitir mais de 1.700 toneladas de óxidos de nitrogênio (NOx) por ano, além de até 180 toneladas de material particulado fino, 500 toneladas de monóxido de carbono e 19 toneladas de formaldeído — substâncias associadas a asma, doenças respiratórias e certos tipos de câncer. A xAI argumenta ter recebido uma isenção para operar sem licença por até 364 dias; pesquisadores da Universidade de Memphis já documentaram aumento da poluição na região, que fica perto de comunidades majoritariamente negras já sobrecarregadas por outras fontes industriais, como uma refinaria e uma siderúrgica.

O risco de escalar o modelo

O TechCrunch cita ainda uma estimativa para a chamada "Data Center Alley", na Virgínia: oito turbinas operando em tempo integral poderiam afetar 2,5 milhões de pessoas, com projeção de 3,4 a 6,5 mortes prematuras adicionais por ano e custos de saúde entre US$ 53 milhões e US$ 99 milhões anuais. É o preço ambiental que corre em paralelo à corrida por velocidade — e que já rendeu a Musk mais um front judicial para administrar.

elon muskspacexxaiturbinas a gáspoluição
Compartilhar