
Fungo 'formiga-zumbi' também vive escondido em musgos da Amazônia
Estudo com metabarcoding na Reserva Ducke, em Manaus, encontrou o parasita Ophiocordyceps colonizando musgos silenciosamente, o que pode explicar por que formigas infectadas escolhem esses locais para morrer.
Por Redação tech & talk · Curadoria assistida por IA, revisão humana
Um parasita com endereço fixo
O fungo Ophiocordyceps, famoso por transformar formigas em "zumbis" ao assumir o controle de seu comportamento antes de matá-las, tem um segredo que passou despercebido por décadas: ele também vive escondido dentro de musgos, sem causar qualquer sintoma aparente. A descoberta é de uma equipe liderada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), publicada em 14 de julho na revista científica IMA Fungus.
Como os pesquisadores chegaram lá
Foto: reprodução/phys.org
A equipe, liderada pelo biólogo Tales Alves Jr., coletou amostras de musgo na Reserva Florestal Adolpho Ducke, ao norte de Manaus, em pontos a até 10 metros de formigas encontradas mortas pelo fungo. Usando a técnica de metabarcoding — que permite ler o DNA de todos os fungos presentes em uma amostra ambiental de uma só vez —, os cientistas identificaram o mesmo Ophiocordyceps presente nos insetos parasitados também instalado, de forma discreta, dentro do tecido dos musgos próximos.
Por que as formigas mordem justamente ali
O fungo é conhecido por manipular o sistema nervoso de formigas infectadas, fazendo com que subam em vegetação e cravem as mandíbulas em folhas ou galhos antes de morrer. O novo estudo mostra que essa escolha de local não é aleatória: os insetos parasitados mordem consistentemente plantas que já abrigam a fase endofítica silenciosa do mesmo fungo. Segundo Alves Jr., "sempre pensamos neste fungo como um parasita exclusivo de insetos, mas nossos dados sugerem que a história é muito maior".
Foto: reprodução/phys.org
Uma estratégia de sobrevivência
Para os pesquisadores, viver escondido dentro de plantas pode ser uma forma do fungo se manter vivo em períodos de escassez de hospedeiros insetos, funcionando como um esconderijo temporário até que novas formigas apareçam para serem infectadas. O coautor João Paulo Machado de Araújo, do Museu de História Natural da Dinamarca, resume a nova hipótese: a manipulação comportamental observada nas formigas pode resultar de uma interação mais complexa envolvendo também a planta onde o fungo vive como endófito.
O que muda com a descoberta
A constatação reformula o entendimento sobre o ciclo de vida de um dos parasitas mais estudados da natureza e abre caminho para investigar se outras espécies do gênero Ophiocordyceps — que reúne mais de 350 espécies — também mantêm fases ocultas em plantas ao redor do mundo.