
Fusão nuclear vira aposta da defesa: RTX investe na Xcimer Energy
Startups de fusão nuclear que penavam com a retração do financiamento climático encontraram um novo comprador: o setor de defesa. RTX fez aporte minoritário na Xcimer Energy e a NNSA assinou memorando com a Pacific Fusion.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Quase US$ 200 milhões e um aporte da RTX mudam o jogo da fusão nuclear
A Xcimer Energy, startup americana de Denver que opera o que descreve como o maior sistema a laser privado do mundo (batizado Phoenix), já havia levantado perto de US$ 200 milhões com investidores de energia e tecnologia. Agora soma um novo sócio de peso: a RTX Ventures, braço de capital de risco da RTX, conglomerado dono da fabricante de armamentos Raytheon, fez um investimento minoritário na empresa e assinou um acordo de parceria tecnológica (teaming agreement) para explorar o uso dos lasers pulsados da Xcimer em sistemas de defesa. O valor do aporte não foi revelado.
O movimento não é isolado. Também nesta semana, a Pacific Fusion — startup cofundada pelo CTO Keith LeChien, ex-Sandia, Lawrence Livermore e NNSA — anunciou um memorando de entendimento com a National Nuclear Security Administration (NNSA), agência americana responsável pelo arsenal nuclear. O acordo foi assinado pelo administrador da NNSA, Brandon Williams, e coincidiu com a inauguração do Research and Manufacturing Campus da empresa em Albuquerque, no Novo México, avaliado em US$ 1 bilhão e vizinho aos laboratórios nacionais Sandia e Los Alamos.
Quem ganha e quem perde
Quem ganha é claro: startups de fusão que viram o financiamento de climate tech estagnar encontram no Pentágono um comprador disposto a pagar por P&D de alto custo. Segundo a reportagem original da TechCrunch, o apetite da defesa por armas a laser cresceu com o papel de drones na guerra moderna — o argumento é econômico: interceptar um drone de US$ 200 com um míssil Patriot de US$ 3 milhões é insustentável, e lasers prometem custo por disparo muito menor.
Para a Xcimer e a Pacific Fusion, o cálculo é o mesmo: a engenharia de um laser que dispara repetidamente, de forma confiável e barata, serve tanto para acender uma reação de fusão quanto para abater uma ameaça aérea. Como resumiu LeChien, "a instalação que estamos construindo também tem utilidade nessa aplicação de defesa de ponta".
Quem perde, por ora, é a narrativa de que a fusão nuclear seria financiada puramente pela promessa de energia limpa. O setor está se reposicionando como fornecedor dual-use, dependente de contratos militares para sustentar o caminho — ainda distante — até a comercialização da energia de fusão.