
Fusão nuclear vira aposta de energia para data centers de IA
A Madison Gas and Electric fechou parceria com a Realta Fusion, startup derivada de pesquisa da Universidade de Wisconsin-Madison, para explorar uma usina de fusão de 200 megawatts — mais um contrato do tipo puxado pela demanda de energia da IA.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: da fábrica de salsicha ao reator do futuro
A Realta Fusion — startup de energia de fusão nuclear derivada de um experimento na Universidade de Wisconsin-Madison, financiado pela agência de projetos avançados de energia do governo americano (ARPA-E) — está transformando uma antiga fábrica da Oscar Mayer em Madison em instalação de pesquisa e desenvolvimento. É desse endereço inusitado que a empresa negocia agora sua aposta mais concreta até aqui: uma parceria com a companhia de energia Madison Gas and Electric para explorar a construção de uma usina de fusão de 200 megawatts, com previsão de meados da década de 2030.
Confirmado: o que já está fechado
Foto: reprodução/planetforward.org
A Madison Gas and Electric fez um investimento em ações na Realta Fusion, sem valor revelado publicamente, e vai oferecer acesso a locais de interconexão à rede elétrica, assistência técnica e financiamento para a eventual usina. A Realta, fundada em 2022, levantou uma rodada Série A de US$ 36 milhões liderada pela Future Ventures, com participação de Khosla Ventures e da própria Wisconsin Alumni Research Foundation, entre outros. Em julho de 2024, a empresa já havia atingido, em seu dispositivo experimental WHAM (Wisconsin HTS Axisymmetric Experiment), o maior campo magnético já aplicado a um plasma: 17 Tesla.
Hipótese: quando isso vira eletricidade de verdade
A meta declarada da Realta é ter um protótipo comercialmente viável funcionando até 2028 — mas a usina de 200 MW com a Madison Gas and Electric só é esperada para meados dos anos 2030, e o acordo atual é de exploração conjunta, não uma usina garantida. Ou seja: o dinheiro e o terreno já existem, mas o reator que gera energia de fusão em escala comercial ainda não.
Por que as utilities estão correndo atrás de fusão agora
A Realta não está sozinha nem é a primeira. A Commonwealth Fusion Systems tem parceria de quase dois anos com a Dominion Energy para uma usina de 400 MW perto de Richmond, na Virgínia. A Helion fechou com a Chelan County Public Utility District uma usina de 50 MW prevista para 2028, para abastecer a própria Microsoft. A Type One Energy negocia com a Tennessee Valley Authority uma usina de 350 MW para meados dos anos 2030, e a Proxima Fusion tem acordo com a alemã RWE para o fim da década. O fio condutor entre todos esses contratos, segundo o setor, é a mesma pressão: o crescimento acelerado de data centers de inteligência artificial está sobrecarregando a rede elétrica, e as concessionárias querem garantir fornecimento futuro — mesmo que a tecnologia de fusão em escala comercial ainda não exista fora de laboratório.