
Gás natural pode triplicar de preço e pesar na conta das big techs
Previsão da consultoria Noreva aponta preços do gás natural acima de US$ 10 por milhão de BTUs em alguns polos dos EUA — o triplo do patamar atual. Para hyperscalers que apostaram em usinas próprias a gás para alimentar data centers de IA, a conta pode sair muito mais cara do que o planejado.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: US$ 10
US$ 10 por milhão de BTUs. É para esse patamar que os preços do gás natural podem subir em determinados polos dos Estados Unidos, segundo previsão da Noreva, consultoria de pesquisa energética. Hoje, o preço varia entre US$ 2 e US$ 4,50 por milhão de BTUs, com o Henry Hub — principal referência do mercado americano, na Louisiana — cotado a pouco menos de US$ 3. Uma alta dessa magnitude representa até o triplo do valor atual, e quem vai sentir o baque com mais força é justamente o setor que decidiu apostar todas as fichas no gás para sustentar a corrida da IA: os hyperscalers.
Por que isso pesa tanto no bolso das big techs
Nos últimos meses, Meta, Microsoft, Google e Amazon anunciaram usinas de gás natural em escala gigantesca para alimentar diretamente seus data centers — o chamado modelo "bring your own power". A Meta lidera com uma usina de 7,5 gigawatts na Louisiana, destinada ao data center Hyperion; a Amazon segue com 7,6 GW no Texas; Microsoft e Google construirão usinas próprias, também em escala de gigawatts, no mesmo estado. O problema é que o combustível responde por cerca de metade do custo de operação de uma grande usina térmica. Segundo Peter Gardett, CEO da Noreva, "todo mundo no mercado de energia foi embalado pela sensação de que o preço do gás não pode subir" — uma complacência que pode custar caro. Hoje a energia representa cerca de 10% dos custos de computação em IA; se o gás dobrar ou triplicar de preço, essa fatia pode saltar para 20% ou até 30%.
Quem ganha e quem perde
A raiz do aperto é estrutural: o gás do oeste do Texas, historicamente um subproduto da extração de petróleo e vendido a preços baixos por falta de escoamento, está sendo conectado a novos gasodutos com destino à exportação de GNL. Um levantamento da Chronometer Partners, citado em reportagens do setor, projeta que os compromissos de exportação de GNL vão consumir a maior parte do aumento de produção esperado até 2030 — antes mesmo de considerar a nova demanda da infraestrutura de IA, criando risco de escassez estrutural já a partir de 2028. Nesse cenário, quem ganha são produtores de gás, operadoras de gasodutos e empresas de geração nuclear, que passam a disputar espaço como alternativa às térmicas. Quem perde são as hyperscalers que se comprometeram com contratos de longo prazo atrelados ao gás — e, no fim da linha, os consumidores: pesquisas já apontam que 80% deles temem que os data centers pressionem suas contas de luz. Se a previsão da Noreva se confirmar, o custo de rodar modelos de IA em solo americano pode subir de forma bem menos previsível do que Wall Street está precificando hoje.