Gasto com IA por funcionário cai 10% em agosto e acende alerta no setor
Dados da Ramp mostram queda de 10% no gasto médio com IA por funcionário entre as maiores empresas em agosto, movida por tokens mais baratos. A dúvida é se o recuo é só resfriamento de verão ou o primeiro sinal de que a demanda corporativa por IA não acompanha a expectativa das big techs.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que assustou o mercado de IA
Dez por cento. Foi essa a queda no gasto médio mensal com inteligência artificial por funcionário entre o top 1% das empresas que mais gastam com o setor, segundo levantamento da Ramp, fintech de gestão de despesas corporativas que hoje processa dados de 70 mil empresas. O valor caiu de patamares mais altos em julho para US$ 7.205 por funcionário em agosto — e a pergunta que ninguém no Vale do Silício quer responder em voz alta é se isso é sazonalidade ou o começo de uma correção de expectativas.
Tokens mais baratos, contas mais enxutas
A explicação mais confortável é a queda no custo por token: a média caiu para US$ 0,68 por milhão de tokens em agosto, ante um pico de US$ 1,15 em março. Ara Kharazian, economista da Ramp, atribui o movimento à guerra de preços entre OpenAI e Anthropic — concorrência que barateia o acesso à tecnologia, mas também reduz a receita capturada por usuário justamente entre os clientes mais intensivos, o top 1% do ranking. Do lado da adoção, o retrato é de estagnação: 56% dos clientes Ramp pagaram por algum produto de IA em agosto, alta de apenas 0,4 ponto percentual sobre julho. Para efeito de comparação com o universo mais amplo da economia americana, o Census Bureau dos EUA aponta que 22% das empresas do país já declaram usar IA em alguma frente.
Quem ganha e quem perde nessa conta
Se a leitura for de acalmia sazonal — agosto é mês de férias no hemisfério norte, com equipes de compras e TI fora do escritório —, o susto passa em setembro. Mas o ângulo que interessa a quem acompanha valuation e receita recorrente é outro: se a redução de custo por token não está sendo compensada por mais volume de uso, a conta de receita das provedoras de modelo (OpenAI e Anthropic à frente) cresce mais devagar do que os múltiplos bilionários atribuídos a elas presumem. É a mesma lógica que preocupa as big techs de nuvem, que apostaram pesado em capacidade de datacenter na expectativa de uma curva de adoção corporativa mais inclinada do que a que os números de agosto sugerem.
Acalmia ou alerta?
O artigo da TechCrunch que revelou os dados da Ramp não fecha a questão — e é honesto ao admitir isso. O cruzamento com o próprio índice da Ramp reforça que a queda é real e mensurável, não ruído estatístico. O que ainda falta é um mês de dados de setembro, fora do período de férias, para saber se a corporação americana está mesmo reduzindo o apetite por IA ou só esperando a temporada de orçamento voltar ao normal.