
Gerente da Nvidia é indiciado por contrabandear 74 servidores de IA para a China
Promotores de Taiwan indiciaram nove pessoas, incluindo um gerente da Nvidia e funcionários da Supermicro, por desviar servidores com chips Blackwell B300 para a China via Japão e Indonésia, driblando as sanções dos EUA.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: 74 servidores, US$ 21,2 milhões
É esse o tamanho do desvio que levou nove pessoas a serem formalmente indiciadas em Taiwan: 74 servidores equipados com os chips Blackwell B300 da Nvidia — entre os mais avançados do mercado — foram embarcados clandestinamente para a China via Japão e Indonésia, driblando as restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos. Segundo a Promotoria do Distrito de Keelung, o esquema gerou lucro ilícito estimado em US$ 21,2 milhões. Outros 56 servidores, de um lote paralelo, chegaram a ser preparados para o mesmo destino, mas foram apreendidos pelas autoridades taiwanesas antes de sair do país.
Quem está na lista
O nome que chama atenção é o de um gerente de distribuição sobrenome Chang, do escritório da Nvidia em Taiwan, apontado pelos promotores como a "figura-chave" do esquema por autorizar a liberação das GPUs B300 — e criticado no próprio indiciamento por ter demonstrado "atitude claramente ruim" após ser flagrado. Ao seu lado, respondem dois gerentes de vendas da filial taiwanesa da Supermicro (sobrenomes Lin e Wang), o CEO da distribuidora Albatron Technology (Lu) e responsáveis por outras cinco empresas de comércio, incluindo Chief Telecom, Chance See International, Long Wins e Flying Tiger Technology. Os promotores pedem penas de até seis anos para os principais réus, por acusações que incluem quebra de confiança, falsificação de documentos e violações agravadas da lei de valores mobiliários de Taiwan.
O papel de Jensen Huang
O episódio ganhou repercussão extra por causa da reação pública do CEO da Nvidia. Dias depois de Taiwan deter três suspeitos e apreender parte dos servidores da Supermicro, Jensen Huang desembarcou em Taipei e declarou a jornalistas que a Supermicro precisa "reforçar e melhorar sua conformidade regulatória e evitar que isso aconteça novamente" — uma cobrança pública rara de um fornecedor a outro em meio a uma investigação criminal em andamento.
Quem ganha e quem perde
A Nvidia tenta se blindar do episódio: as autoridades taiwanesas não indiciaram a empresa como pessoa jurídica, apenas o funcionário individual, e a fala de Huang reforça a estratégia de jogar a responsabilidade sobre a cadeia de distribuição da Supermicro. Já a Supermicro, com dois funcionários formalmente acusados, sofre um golpe reputacional em um momento delicado, com clientes hyperscale monitorando de perto a rastreabilidade de hardware sensível. Para Washington, o caso reforça o argumento de que as restrições de exportação a chips avançados seguem sendo furadas por rotas de triangulação via terceiros países — pressão que deve se traduzir em fiscalização ainda mais rígida sobre revendedores e distribuidores da cadeia de IA na Ásia.