tech & talk
Ciência30 de ago. de 2026, 01:37

Golfinhos têm 'nome' próprio, e elefantes e papagaios podem ter também

Golfinhos-nariz-de-garrafa desenvolvem assobios de assinatura únicos desde filhotes, e elefantes reconhecem chamados dirigidos a eles. Mas cientistas ainda debatem se isso equivale de fato a um 'nome'.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana

Imagine uma sala cheia de gente gritando ao mesmo tempo — e, ainda assim, você reconhece na hora quando alguém chama o seu nome. É mais ou menos isso que golfinhos-nariz-de-garrafa parecem fazer debaixo d'água, só que usando assobios no lugar de sílabas.

O que é consenso

Desde a década de 1960, pesquisadores já notavam que filhotes de golfinho-nariz-de-garrafa desenvolvem, ainda pequenos, um assobio próprio e inconfundível — o chamado "assobio de assinatura". O fenômeno é bem documentado: o Sarasota Dolphin Research Program, na Flórida, mantém desde os anos 1970 o estudo contínuo mais longo já feito com uma população de cetáceos selvagens, e já catalogou assobios de assinatura verificados de cerca de 300 indivíduos.

O ponto que reforça a comparação com um "nome" é o uso social desse assobio: outros golfinhos da mesma comunidade aprendem a imitar o assobio de um indivíduo para chamar sua atenção — como se o estivessem chamando por um apelido. É esse uso simbólico, e não só a existência de um som único, que intriga os cientistas.

Com elefantes, a evidência é mais recente e vai numa direção parecida, mas por outro caminho. Um estudo de 2024 liderado por Michael Pardo, ecologista comportamental da Universidade Estadual do Colorado, publicado na revista Nature Ecology and Evolution, analisou décadas de gravações de elefantes africanos feitas no Quênia (Reserva Nacional de Samburu e Parque Nacional de Amboseli, entre 1986 e 2022). Usando aprendizado de máquina, a equipe identificou ruídos graves e de baixa intensidade — os "rumbles" — dirigidos a indivíduos específicos. Em testes de playback, os elefantes reagiam de forma mais intensa quando ouviam a gravação de um chamado endereçado a eles mesmos do que a chamados dirigidos a outros membros do grupo.

Já em papagaios, uma avaliação com cerca de 800 aves encontrou que perto de 50% delas usavam sons distintos para se referir a humanos e outros animais de convívio — outro indício de referência individualizada, ainda que com metodologia diferente da usada com golfinhos e elefantes.

O que ainda é debate

Aqui mora a divergência entre os pesquisadores: golfinhos e papagaios parecem criar esses chamados por imitação — reproduzem o som característico do outro indivíduo para chamá-lo. Elefantes, segundo o estudo de Pardo, não fazem isso: os "rumbles" direcionados não imitam o som de assinatura de quem os recebe, o que aproximaria (ou afastaria, a depender da interpretação) esse comportamento do funcionamento dos nomes humanos.

Em julho de 2026, a psicóloga cognitiva Kelly Jaakkola, do Dolphin Research Center, na Flórida, e sua equipe propuseram três critérios para que um som animal seja chamado propriamente de "nome": referência a um indivíduo específico, uso simbólico (e não apenas imitativo) e significado compartilhado entre quem chama e quem é chamado. Como resume a própria pesquisadora, "é uma grande afirmação chamar algo de nome" — e, por enquanto, nenhuma espécie preenche os três critérios de forma inquestionável para todos os cientistas da área. A bióloga Lauryn Benedict, da Universidade do Norte do Colorado, também estuda o tema e reforça que a discussão sobre o que conta como nome no mundo animal segue em aberto.

golfinhoselefantespapagaioscomunicação animalcomportamento animal
Compartilhar