
Google move equipe de segurança de IA do DeepMind para setor de lobby
A Google vai transferir cerca de 90 funcionários do time de responsabilidade em IA do DeepMind para o setor de Assuntos Globais, que cuida de políticas públicas e lobby. A empresa diz que a mudança fortalece a segurança dos modelos, mas funcionários temem perda de independência.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O que muda na prática
A Google confirmou a transferência de cerca de 90 funcionários do time de "responsabilidade em IA" do Google DeepMind para o setor de Assuntos Globais da empresa — a mesma área que cuida de políticas públicas e lobby em Brasília, Washington e Bruxelas. A mudança deve estar concluída até 1º de setembro, segundo e-mail interno enviado aos funcionários.
Para explicar por que isso importa, pense num laboratório farmacêutico. Uma coisa é ter um departamento de farmacovigilância dentro do prédio de pesquisa, ao lado de quem cria o remédio, testando efeitos colaterais antes de ele sair da bancada. Outra, bem diferente, é mandar esse departamento para o escritório de relações institucionais, que negocia com o governo. É mais ou menos essa migração que a Google faz com o time que audita seus modelos de inteligência artificial.
Foto: reprodução/digitimes.com
O que a equipe faz
O grupo de 90 pessoas não escreve código de produto: avalia riscos. Testa se modelos de fronteira, como o Gemini, podem ajudar na criação de armas químicas, biológicas, radiológicas ou nucleares — os riscos CBRN, jargão técnico para "coisas que podem sair muito, muito erradas". Também estuda como as pessoas interagem com chatbots e os efeitos psicológicos desse contato, tema que ganhou peso após casos de usuários desenvolvendo dependência emocional de assistentes de IA.
A versão da Google
Helen King, vice-presidente do Google DeepMind e responsável pelo time, garantiu aos funcionários que a missão de pesquisa, o poder computacional disponível, o tamanho da equipe e a liberdade de publicar artigos científicos externamente permanecem inalterados. Publicamente, a empresa afirma que a mudança vai "fortalecer a capacidade de informar segurança para nossos modelos e produtos".
A preocupação de quem fica de fora
Funcionários ouvidos sob anonimato veem o copo meio vazio. O temor é perder independência: hoje o time trabalha ao lado de quem desenvolve o Gemini, com acesso direto aos modelos mais recentes antes do lançamento. Movido para uma área de política pública, o receio é que esse acesso fique mais burocrático e a pesquisa deixe de ser tão isenta — um setor que negocia com governos tem incentivos diferentes de um laboratório que só quer saber se a tecnologia é segura.
A mudança acontece dentro de uma reorganização maior no Google DeepMind, que também levou Demis Hassabis, cofundador e até então CEO do laboratório, a assumir, a partir de 5 de agosto, o cargo de presidente da divisão.