
Google paga US$ 10 milhões por dados internos da Spirit Airlines para treinar IA
Google arrematou por US$ 10 milhões o acervo digital da Spirit Airlines em leilão de falência. São 100 milhões de e-mails e 30 milhões de linhas de código destinados a produtos e modelos de IA.
Por Marina Sato · Repórter de IA
O Google pagou US$ 10 milhões pelo acervo digital da Spirit Airlines, companhia aérea que encerrou operações em 2 de maio. O valor venceu um leilão realizado dentro do processo de falência da empresa, aberto no tribunal de falências do Distrito Sul de Nova York. A decisão final sobre a venda cabe ao juiz Sean H. Lane, com audiência marcada para 19 de agosto.
O que está no pacote

Foto: reprodução/itpro.com
O lote inclui cerca de 100 milhões de e-mails, 500 milhões de mensagens e registros de colaboração do Microsoft Teams e 30 milhões de linhas de código, além de metadados de desenvolvimento e modelos de software. Também fazem parte dados de sistemas financeiros, operações, gestão de receita, escalas de tripulação, auditorias e cerca de 3,4 milhões de registros de folha de pagamento, com informações de funcionários que remontam a 1986.
O que fica de fora
A venda exclui perfis de passageiros — cerca de 97,5 milhões de registros —, dados do programa de fidelidade Free Spirit, que somam dezenas de milhões de contas, informações de 740 mil portadores de cartão de crédito co-branded e dados de pagamento. Um terceiro nomeado pelo tribunal vai supervisionar a chamada desidentificação, processo que exige remover elementos capazes de ligar os dados a pessoas específicas antes da entrega ao Google.
Objeção de funcionários
A Association of Flight Attendants-CWA, sindicato que representa mais de 5.500 comissários da Spirit, apresentou objeção formal à venda. Sara Nelson, presidente da entidade, chamou a operação de "ultrajante" e disse que o Google tenta comprar dados que "não deveriam ser vendidos". A crítica mira o uso de comunicações internas de funcionários, incluindo as mensagens do Teams, para fins comerciais sem consentimento direto dos trabalhadores.
Para que o Google quer isso
Segundo documentos do processo de falência, a empresa pretende usar o material para desenvolvimento de produtos e para aprimorar o treinamento de modelos de IA. Não há, nas fontes consultadas, detalhamento de quais produtos ou modelos vão incorporar esses dados, nem prazo para a etapa de desidentificação.
O que ainda falta responder
A audiência de 19 de agosto ainda não teve desfecho divulgado. Não está claro se a objeção do sindicato pode alterar os termos da venda ou barrá-la, nem como será fiscalizado o processo de remoção de dados pessoais depois que o material passar às mãos do Google.
Atualização (19/08, 19:00): O sindicato Association of Flight Attendants (AFA) entrou com uma objeção formal na Justiça contra a venda dos dados internos da Spirit Airlines ao Google. Segundo o AFA, o pacote de US$ 10 milhões inclui cerca de 600 milhões de registros de comunicação de funcionários — entre eles 5 milhões de escalas de tripulação (crew pairings), além de registros de RH, folha de pagamento, treinamento e fluxo de trabalho dos comissários de bordo.
A presidente internacional do AFA, Sara Nelson, classificou a venda como uma tentativa de comprar "dados que não têm nada a ver com o negócio" e declarou: "We will fight this every way possible" ("Vamos lutar contra isso de todas as formas possíveis"). O sindicato pede à Justiça que rejeite a venda a menos que registros de comissários — incluindo cartões de ponto, folha de pagamento e conteúdo do Microsoft 365 — sejam excluídos do pacote, alegando risco de reidentificação de funcionários individuais mesmo em dados que a Google classifica como anonimizados.
Diante da repercussão, um tribunal de falências dos EUA adiou para 9 de setembro a decisão sobre a compra da Alphabet.