
Google promete dobrar infraestrutura no Brasil, mas não confirma data center
Mesmo com o Redata aprovado e a demanda por IA em alta, o Google ainda não confirmou a construção de um novo data center no país — apenas o dobro de capacidade de processamento até 2030.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O dado que ninguém confirma
Quem usa serviços de nuvem ou inteligência artificial no Brasil sente o efeito da distância: cerca de 60% das cargas digitais brasileiras hoje são processadas fora do país, segundo dados citados pelo Canaltech. O Google anunciou que vai dobrar sua infraestrutura técnica no território nacional até 2030, mas evitou confirmar se isso inclui a construção de um novo data center físico — o tipo de obra que gera empregos locais, consome água e energia, e é a peça que falta para reduzir de fato essa dependência externa.
O que o governo já ofereceu
Em 15 de setembro, o governo federal sancionou o Redata, regime especial de tributação para serviços de data center que reduz impostos sobre equipamentos usados na instalação, modernização e expansão dessas estruturas. Em troca, as empresas beneficiadas precisam destinar pelo menos 10% da capacidade de processamento instalada com o incentivo ao mercado brasileiro, além de comprovar uso de energia renovável ou de baixa emissão e eficiência no consumo de água. É a contrapartida que deveria funcionar como fiscalização: sem ela, o incentivo fiscal vira renúncia sem retorno claro para o cidadão.
O que o Google já colocou na mesa
Enquanto a decisão sobre um novo data center não sai, o Google adianta outras frentes: a partir de 15 de outubro, o Gemini Enterprise passa a oferecer processamento local para o modelo Gemini 3.5 Flash no país, e a região de nuvem de São Paulo já recebe máquinas virtuais G4 com GPUs Nvidia RTX Pro 6000 Blackwell, usadas para cargas pesadas de inteligência artificial. A empresa também investe em cabos submarinos como Firmina, Tannat, Curie e Humboldt, que sustentam a conexão internacional dos dados brasileiros.
Comparado a quem, pago por quem
Segundo Eduardo López, presidente do Google Cloud para a América Latina, "todo o nosso desenho de investimento tem a ver com a demanda" — ou seja, o novo data center só sai do papel se o mercado brasileiro crescer o suficiente para justificar o investimento. O programa Redata projeta elevar a capacidade instalada de data centers no país de 750 MW para 3 GW até 2032, com potencial de atrair R$ 100 bilhões em investimentos anuais. A conta é grande, mas ainda sem nome de quem vai construir o quê — e sem clareza sobre quem vai fiscalizar se as contrapartidas de energia limpa e uso local realmente serão cumpridas.