
Google testa 1º chip de IA em órbita e aponta gargalo para data centers espaciais
A empresa lançou um satélite com seu chip Trillium TPU para validar computação em órbita, mas calcula que a Starship, da SpaceX, precisaria de 1.800 lançamentos em uma década para tornar data centers espaciais viáveis.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine erguer, em órbita, um complexo do tamanho de vários campos de futebol feito só de painéis solares e processadores — e para isso, um único foguete teria que decolar quase todos os dias, por dez anos seguidos. É a conta que o Google fez para explicar por que data centers no espaço ainda são projeto de longo prazo, não realidade imediata.
O que já é fato confirmado
No dia 1º de outubro, o Google lançou seu primeiro chip de inteligência artificial em órbita a bordo de um satélite construído pela Planet Labs, empresa americana especializada em imageamento orbital da Terra, que subiu em um foguete da SpaceX. O componente é uma unidade Trillium TPU, processador próprio do Google e concorrente das GPUs da Nvidia, usada para testar se o hardware aguenta as condições do espaço — radiação, vácuo e variação térmica.
O teste faz parte do Project Suncatcher, iniciativa que o Google revelou em novembro de 2025 para avaliar a viabilidade de clusters de computação em órbita. Segundo Travis Beals, executivo que lidera o projeto, em declaração à TechCrunch, "fizemos testes em terra, mas não existe teste que seja tão bom quanto a coisa real". Ele também disse que a taxa de erro observada é baixa para operações típicas de inferência — da ordem de "um em um milhão".
O que é hipótese e cálculo de viabilidade
Aqui entra a parte especulativa, baseada em projeção da própria empresa, não em dado medido: o Google estima que, para um cluster orbital de 81 satélites em formação — a visão de longo prazo do projeto — ser economicamente viável, o custo de lançamento precisaria cair para cerca de US$ 200 por quilograma até 2035. Para chegar lá, a Starship, veículo ainda em testes da SpaceX, teria que decolar aproximadamente 1.800 vezes na próxima década, o equivalente a 180 lançamentos por ano — um ritmo muito acima do que qualquer foguete já sustentou.
(Vale registrar: a cobertura internacional do tema teve uma correção de número — o cálculo inicial de 1.600 lançamentos foi revisado para 1.800 pela reportagem original.)
Próximos passos
O Google planeja lançar, até o início de 2027, dois satélites mais sofisticados para testar clusters de computação em maior escala, segundo a reportagem. A ideia de 81 satélites formando uma rede de 1 km de raio continua sendo um desenho conceitual, dependente de barreiras técnicas e logísticas ainda não resolvidas — entre elas, justamente, o custo e a cadência de lançamentos de foguetes reutilizáveis.