Governador dos EUA pede pausa em câmeras da Flock após reação popular
Ned Lamont, de Connecticut, pediu que cidades interrompam a instalação de câmeras de vigilância e leitores de placas da Flock Safety até que o estado defina regras de privacidade. O caso reflete uma onda de cancelamentos de contratos com a empresa em dezenas de municípios dos EUA.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Pressão popular leva governador a pedir pausa
O governador de Connecticut, Ned Lamont, pediu na sexta-feira (7) que prefeituras do estado suspendam imediatamente a instalação de novas câmeras de segurança e leitores automáticos de placas (ALPRs, na sigla em inglês) fornecidos pela empresa Flock Safety. Em carta ao conselho estadual de padrões e treinamento da polícia, Lamont disse que os cidadãos estão "justificadamente preocupados" com a forma como a tecnologia é usada e com o destino dos dados coletados. Ele deu 30 dias para que o órgão elabore diretrizes de uso para as polícias estadual e municipais.
O estopim: uma reunião pública lotada
A pressão cresceu depois que mais de 100 moradores compareceram a uma reunião da Câmara Municipal de Milford para protestar contra as câmeras da Flock, os ALPRs e radares de zona escolar. Dois senadores estaduais democratas já haviam pedido, dias antes, uma pausa voluntária nas instalações e prometido projeto de lei para 2027 endurecendo as regras. Em maio, Connecticut sancionou a Lei Pública 26-14, que trata especificamente da privacidade em leitores de placas, com trechos entrando em vigor em outubro e dezembro deste ano.
Um movimento que já passa de 50 cidades
Connecticut não é caso isolado. Mais de 50 cidades e condados dos Estados Unidos já cancelaram, não renovaram ou rejeitaram contratos com a Flock Safety neste ano, em pelo menos 23 estados — da Califórnia a Massachusetts. A empresa hoje presta serviço a mais de 7 mil agências de segurança pública no país, mas enfrenta questionamentos crescentes sobre compartilhamento de dados, inclusive sobre se agências de imigração (ICE) teriam acesso às informações coletadas. Um porta-voz da Flock rebateu as críticas afirmando que a lei de Connecticut é "uma das mais fortes do país" em proteção de dados.
E no Brasil, quem fiscaliza?
O episódio americano é um retrato do dilema que também chega às cidades brasileiras conforme prefeituras expandem redes de câmeras com reconhecimento de placas e leitura facial, muitas vezes via parcerias público-privadas pouco divulgadas. Vale perguntar: quanto cada município paga por esses contratos, qual empresa administra o banco de imagens, por quanto tempo os dados ficam armazenados e quem tem acesso a eles. Sem um órgão independente de auditoria — como cobram agora os moradores de Connecticut — o cidadão fica sem saber se a câmera que promete mais segurança na esquina não está, na prática, mapeando seus deslocamentos diários sem controle nenhum.