
Governo aponta riscos de "companheiros de IA" para menores no Brasil
Ministério da Justiça mapeou 13 apps de IA de companhia, entre eles Character.AI e Replika, e encontrou falhas na verificação de idade e exposição a conteúdo sexualizado. Caso foi encaminhado à ANPD e à Senacon.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
O Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), divulgou uma nota técnica apontando riscos em 13 aplicativos de "companheiros de IA" usados por crianças e adolescentes no Brasil. Estão na lista Character.AI, chatbot de companhia por inteligência artificial voltado a conversas e interpretação de personagens, e Replika, aplicativo de IA que simula amizade, apoio emocional ou relacionamento romântico. Completam a relação Nomi, Candy.ai, Kindroid, Chai, Paradot, Talkie, CrushOn.AI, EVA AI, Swipey, Anima e SpicyChat.AI.
Segundo a nota, a maior parte desses serviços usa a autodeclaração de data de nascimento como único mecanismo para confirmar a idade do usuário — método que testes citados pela Sedigi mostraram ser fácil de contornar, permitindo que adolescentes criem perfis como se fossem adultos. O documento também cita exposição a conteúdo sexualizado ou impróprio para a idade, coleta de dados pessoais e íntimos, e criação de perfis comportamentais e emocionais dos usuários. O material foi encaminhado à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para apuração de possíveis irregularidades.
Quem é afetado
O alerta mira diretamente crianças e adolescentes, público que interage com esses chatbots em busca de companhia, apoio emocional ou até relacionamento afetivo simulado. A preocupação do governo cresceu com a entrada em vigor do ECA Digital, a Lei nº 15.211/2025, que passou a valer em março de 2026 e exige mecanismos efetivos de verificação de idade quando a plataforma oferece conteúdo impróprio a menores. Pais e responsáveis também são afetados indiretamente, já que muitas vezes desconhecem que o filho usa esse tipo de app e para quê.
O que fazer agora
Enquanto ANPD e Senacon avaliam o caso, dá para reduzir o risco em casa com medidas simples:
- Verifique quais apps de chat e "companhia por IA" estão instalados no celular do seu filho ou filha, mesmo os disfarçados de jogo ou assistente virtual;
- Desconfie de apps que aceitam qualquer data de nascimento digitada, sem nenhuma outra checagem — é sinal de verificação de idade frágil;
- Converse sobre o uso excessivo desses chatbots: sinais de alerta incluem isolamento social, queda no rendimento escolar e preferência pela conversa com a IA em vez de pessoas reais;
- Ative controles parentais e restrições de download na loja de aplicativos do aparelho;
- Denuncie suspeita de conteúdo sexualizado ou coleta indevida de dados de menores aos canais da ANPD ou da Senacon.
A expectativa é que a apuração oficial resulte em exigências mais rígidas de verificação de idade para esses serviços operarem no país.