
Governo dos EUA empresta US$ 1,9 bi para reativar usina nuclear que abastecerá o Google
O Departamento de Energia dos EUA fechou o maior empréstimo já concedido para reviver uma usina nuclear, viabilizando o acordo de 25 anos que o Google fez para comprar energia da planta em Iowa.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 1,9 bilhão para tirar uma usina nuclear do papel
O Departamento de Energia dos EUA fechou um empréstimo de até US$ 1,9 bilhão para reativar a usina nuclear Duane Arnold, em Iowa — o maior financiamento já concedido pelo órgão para religar uma planta nuclear desativada. O dinheiro sai dos cofres públicos americanos, mas o principal beneficiário comercial do outro lado da equação já está definido: o Google.
O acordo por trás do empréstimo
Foto: reprodução/engadget.com
A usina pertence à NextEra Energy, maior operadora de usinas eólicas e solares dos Estados Unidos e dona de um extenso parque de geração nuclear no país. Desligada desde 2020 após avarias causadas por uma tempestade, a Duane Arnold virou peça central de um acordo assinado em outubro de 2025: um contrato de compra de energia (PPA) de 25 anos entre a NextEra e o Google, pelo qual a gigante de tecnologia garante fornecimento de eletricidade de fonte nuclear para alimentar data centers de inteligência artificial na região.
Com capacidade de 615 megawatts, a usina fica no condado de Linn, perto de Cedar Rapids, e a expectativa da NextEra é reiniciar a operação em 2029. O Departamento de Energia estima que o projeto deve gerar cerca de 1.500 empregos na fase de construção e mais de 450 postos permanentes de operação. Já o Google afirma que pretende erguer até seis data centers nas proximidades da planta — parte de um pacote de investimentos que a empresa diz somar mais de US$ 6,8 bilhões em Iowa, com outros US$ 7 bilhões prometidos para os próximos dois anos.
Quem paga a conta da corrida por energia da IA
O ponto sensível é o financiamento. O empréstimo bilionário sai do bolso do contribuinte americano, via Departamento de Energia, para destravar uma infraestrutura cujo principal cliente de longo prazo é uma das empresas mais valiosas do planeta. James Danly, vice-secretário de Energia dos EUA, defendeu que o reinício da usina vai baixar os custos de eletricidade para os consumidores locais — mas o comunicado oficial não detalhou o mecanismo por trás dessa conta.
O caso de Duane Arnold expõe um padrão que vem se repetindo nos Estados Unidos: diante da explosão de consumo elétrico dos data centers de IA, empresas de tecnologia fecham contratos de longuíssimo prazo com geradoras de energia, e o governo entra com crédito subsidiado para viabilizar obras que, sozinhas, dificilmente sairiam do papel nesse ritmo. Para o Google, é energia limpa garantida por duas décadas e meia a um custo de capital menor do que teria sozinho. Para o Tesouro americano, é uma aposta bilionária de que a fatura será paga — pelo mercado, e não pelo contribuinte, no fim da linha.