
Governo dos EUA vira sócio de startups de fusão por US$ 260 milhões
Helion Energy recebeu US$ 175 milhões e a Commonwealth Fusion Systems, US$ 85 milhões, do Departamento de Comércio — em troca, Washington ganhou participação acionária nas duas.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa
US$ 260 milhões: foi o que o Departamento de Comércio dos Estados Unidos destinou a duas startups de energia de fusão nuclear em 26 de outubro de 2026 — US$ 175 milhões para a Helion Energy, que promete energia comercial de fusão ainda nesta década, e US$ 85 milhões para a Commonwealth Fusion Systems (CFS), startup ligada ao MIT que desenvolve reatores de fusão. O dinheiro, pago via CHIPS and Science Act, lei de 2022 criada para turbinar a indústria de semicondutores dos EUA, vai para semicondutores de alta tensão e módulos de potência — não para o reator em si.
A contrapartida é o que chama atenção: as duas empresas vão emitir ações sem direito a voto para o governo americano. No caso da Helion, isso equivale a cerca de 1% da empresa, calculado sobre a avaliação de US$ 15,5 bilhões da sua rodada Série G. A CFS não revelou o percentual, mas já levantou cerca de US$ 4 bilhões em capital desde a fundação.
O CEO da Helion, David Kirtley, resumiu o racional: "Essa abordagem alinha os interesses da Helion e do contribuinte americano em torno do nosso sucesso comercial." Um porta-voz da CFS usou argumento parecido, dizendo que a participação "vai permitir que o contribuinte americano participe do ganho do nosso sucesso comercial".
Não é a primeira vez que Washington troca dinheiro por equity em vez de só subsídio puro: a MP Materials cedeu 15% por US$ 400 milhões, a USA Rare Earth deu 10% por US$ 277 milhões e a Intel já repassou cerca de 10% de participação referente a US$ 8,9 bilhões em recursos federais. É um padrão que se consolida no governo americano — e que muda o cálculo de quem financia essas startups.
Quem ganha: as duas empresas, que validam a tecnologia junto a um investidor que não cobra dividendo nem interfere no conselho. Quem banca o risco agora: o contribuinte americano, que vira sócio minoritário num setor que já levantou mais de US$ 14 bilhões sem nenhuma usina comercial em operação até hoje.