
Governo Trump diz que Anthropic voltou a estar "do lado certo" após meses de conflito
Secretário de Comércio Howard Lutnick afirma que a administração Trump voltou a confiar na Anthropic depois de uma disputa de meses sobre o uso militar do Claude e restrições a modelos de IA.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Do desentendimento ao aperto de mãos
Imagine um casal que brigou feio, ficou meses sem se falar, e de repente aparece junto numa festa como se nada tivesse acontecido. É mais ou menos o clima entre o governo Trump e a Anthropic, dona do chatbot Claude. O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, disse à agência Axios que a administração hoje confia na empresa e que ela está "de volta ao lado certo" depois de uma bronca que já dura meses.
Em bom português: o governo achou, por um tempo, que a Anthropic estava sendo teimosa demais. E a empresa achou que o governo estava exagerando na cobrança.
De onde veio a encrenca
A confusão começou lá em junho, quando a Anthropic lançou ao público o modelo Claude Fable 5. Dias depois, o governo federal impôs controles de exportação e obrigou a empresa a bloquear o acesso de estrangeiros ao modelo — na prática, tirando-o do ar para boa parte do mundo. Havia também o Mythos 5, uma versão com menos travas de segurança, reservada só para empresas selecionadas.
O argumento do governo era que existia um "jailbreak" — um jeito de burlar as proteções do sistema — capaz de comprometer a segurança nacional. A Anthropic rebateu dizendo que a falha era "relativamente simples" e que existia em praticamente qualquer modelo de IA do mercado; travar um produto inteiro por causa disso, argumentou a empresa, paralisaria a indústria toda. Por trás disso tudo, ainda pesava outra disputa: a Anthropic vinha resistindo a liberar o Claude para vigilância doméstica e sistemas de armas autônomas, o que levou o secretário de Defesa, Pete Hegseth, a barrar a empresa de parte dos contratos militares, classificando-a como "risco na cadeia de suprimentos".
O que mudou
A virada veio em etapas. No dia 27 de agosto, um juiz federal decidiu a favor da Anthropic, derrubando essa classificação de risco. Depois, o governo suspendeu os controles de exportação sobre o Fable 5 e o Mythos 5. E, no dia 2 de setembro, em evento do G20, Lutnick apresentou publicamente Tom Brown, cofundador da Anthropic que passou a liderar a reaproximação com Washington, num gesto claro de reconciliação.
"Confiamos na Anthropic. Eles fizeram o que pedimos. Estão de volta ao lado certo", disse Lutnick. Brown, por sua vez, comentou ter gostado de uma publicação recente do próprio Trump sobre o tema. Até a fechamento das apurações, a Anthropic não havia se manifestado oficialmente sobre as declarações do secretário — mas a empresa já havia dito, semanas antes, que a suspensão das restrições resolvia uma disputa que se arrastava havia semanas.
Fica a lição de sempre em relação entre empresa de tecnologia e governo: hoje é elogio público, amanhã pode ser bronca de novo. O jogo entre Washington e o Vale do Silício raramente fica parado por muito tempo.