
Governo Trump usa IA para negar atendimento médico a idosos nos EUA
Programa piloto do Medicare, sistema público de saúde para idosos nos EUA, usa algoritmos de empresas privadas para aprovar ou negar procedimentos — e médicos relatam pacientes chorando de dor à espera de autorização.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Quando o algoritmo decide se você espera ou não pela cirurgia
Imagine ligar para o plano de saúde da sua avó e descobrir que quem vai decidir se ela faz aquela cirurgia na coluna não é um médico, mas um sistema de inteligência artificial contratado por uma empresa que ganha mais dinheiro quanto mais pedidos recusa. É basicamente isso que está acontecendo nos Estados Unidos, segundo reportagem da Ars Technica que expôs os bastidores de um experimento do governo Trump dentro do Medicare, o sistema público de saúde voltado a maiores de 65 anos no país.
O que é o programa WISeR
Desde janeiro de 2026, o governo americano testa o modelo WISeR (sigla para Redução de Serviço Desperdiçado e Inadequado, em tradução livre) em seis estados: Arizona, Nova Jersey, Ohio, Oklahoma, Texas e Washington. A ideia, no papel, é usar IA para identificar procedimentos considerados desnecessários antes de autorizá-los — algo que o Medicare tradicional nunca exigiu. Na prática, seis empresas privadas de tecnologia, entre elas Innovaccer Inc. (contratada para operar em Ohio) e Virtix Health LLC, foram contratadas para rodar esses algoritmos, com uma particularidade importante: parte da remuneração dessas empresas está atrelada à economia gerada pelas negativas de cobertura. Ou seja, quanto mais pedidos elas recusam, mais podem lucrar.
O custo humano do atraso
Documentos obtidos pela organização de defesa de direitos digitais EFF (Electronic Frontier Foundation), via ação judicial movida em março, mostram que só duas das empresas negaram 5.944 pedidos de autorização em três meses — a Virtix chegou a recusar mais pedidos do que aprovou, e precisou apresentar um plano corretivo à agência reguladora CMS (Centro de Serviços Medicare e Medicaid). Embora o prazo oficial de resposta seja de 72 horas, alguns pacientes esperaram até 83 dias. Médicos relataram à imprensa pacientes chorando de dor à beira do leito, à espera de aprovação para procedimentos como cifoplastia, tratamento para fraturas na coluna comuns em idosos.
Dois lados de uma mesma moeda
É inegável que sistemas de saúde enfrentam desperdício real e fraudes que custam bilhões todo ano — o problema é confiar essa triagem a uma IA ainda imatura, operada por empresas com incentivo financeiro direto para dizer não. O Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização do Congresso americano equivalente a um TCU, determinou em maio que o programa não seguiu os trâmites legais corretos, colocando sua legalidade em xeque. Mesmo assim, o WISeR segue ativo, com planos de expansão nos próximos anos. Para o público brasileiro, o caso é um alerta sobre o limite entre automatizar triagens administrativas e delegar decisões que afetam diretamente a saúde e a dignidade de quem mais precisa de cuidado.