
Guerra nuclear e uso malicioso de IA podem extinguir a humanidade até 2100
Comissão da The Lancet reúne 35 especialistas e mapeia 17 ameaças catastróficas à saúde global, apontando a guerra nuclear e o uso malicioso da inteligência artificial como os dois únicos riscos com potencial de extinção humana até 2100.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: 2100 ainda está a umas três gerações de distância
Se você tiver um filho hoje, é bem provável que seus bisnetos ainda estejam vivos em 2100. É nesse horizonte — não amanhã, não em uma década, mas em três ou quatro gerações — que uma nova comissão publicada na The Lancet, uma das revistas científicas mais respeitadas da área médica, projeta o risco de dois cenários capazes de levar à extinção da humanidade: a guerra nuclear e o uso malicioso da inteligência artificial.
O que é dado confirmado
Foto: reprodução/unn.ua
O que está confirmado é a existência do relatório em si. Uma comissão de 35 especialistas em saúde, economia, segurança, governança e tecnologia — copresidida por Christopher Murray, do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) da Universidade de Washington, com participação de nomes como Ibrahim Abubakar, da University College London — mapeou 17 ameaças catastróficas interligadas à saúde global. Os resultados foram apresentados nesta semana durante a Cúpula Mundial da Saúde, em Berlim.
A lista inclui, além da guerra nuclear e do uso malicioso de IA, a crise climática, a poluição do ar, a resistência a antimicrobianos, pandemias de ocorrência natural, desnutrição infantil, conflitos convencionais, cortes na ajuda internacional, consumo elevado de álcool, pressão arterial elevada, desigualdade de renda, baixo nível de escolaridade, obesidade, tabagismo, problemas de saúde mental e envelhecimento pouco saudável.
O que é projeção de risco, não previsão
Aqui vem a parte que exige cautela: a comissão é explícita em dizer que a probabilidade de guerra nuclear ou de uso malicioso de IA em escala extinguidora continua baixa. O que eleva essas duas ameaças ao topo da lista não é a chance de ocorrerem, mas a magnitude das consequências caso ocorram — por isso elas são tratadas como as únicas com "potencial de extinção" entre as 17 listadas.
Os números são projeções de impacto evitável, não estimativas de probabilidade: medidas preventivas contra conflito nuclear poderiam evitar cerca de 133 milhões de mortes e 9,35 bilhões de DALYs (anos de vida saudável perdidos) até 2100; já ações para reduzir o risco de uso malicioso de IA poderiam evitar 10,4 bilhões de DALYs no mesmo período. Para efeito de comparação dentro do próprio relatório, limitar o aquecimento global a cerca de 1,8°C — em vez de um cenário de 4,4°C — evitaria 1,89 bilhão de anos de vida saudável perdidos, com 70% do impacto concentrado na África Subsaariana.
Os caminhos apontados pela comissão
O relatório não se limita a listar riscos: propõe agir de forma preventiva antes que ameaças se transformem em crises, destinar recursos financeiros e equipes dedicadas à antecipação e à preparação, investir em inovação tecnológica, fortalecer sistemas de saúde e reavaliar anualmente as 17 ameaças à medida que novos dados surgirem. Os autores insistem que os riscos são interligados — e que tratá-los isoladamente é a forma menos eficaz de reduzi-los.