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Ciência09 de out. de 2026, 10:54

Hélio escapando de exoplaneta na zona habitável intriga cientistas

Estudo identificou hélio escapando da atmosfera do exoplaneta LHS 1140b, a 48 anos-luz da Terra, mas o sinal é instável e observações mais recentes não o confirmaram — a ideia de que isso seria sinal de vida é pura especulação, sem qualquer comprovação.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine disparar um sinal de rádio na velocidade da luz e esperar 48 anos só pra ele chegar ao destino — e outros 48 pra resposta voltar. É mais ou menos a distância que separa a Terra do LHS 1140b, um planeta rochoso que orbita uma estrela anã vermelha na constelação de Cetus e que voltou a chamar atenção da comunidade científica por um motivo específico: parte do hélio da sua atmosfera parece estar escapando para o espaço.

O que está confirmado

Um estudo publicado na revista científica Science, uma das publicações mais respeitadas em ciência no mundo, descreveu a detecção de hélio escapando da atmosfera do LHS 1140b. A observação foi feita com o espectrógrafo WINERED, instalado no Observatório Magellan, no Chile, conduzido pelo pesquisador Collin Cherubim e sua equipe. Segundo as estimativas do grupo, esse envelope de hélio poderia ter se mantido por mais de três bilhões de anos, e sua presença é tratada como a evidência mais forte até agora de que o planeta realmente retém uma atmosfera.

Há, porém, uma complicação: o próprio fenômeno parece variável. Observações mais antigas indicaram hélio escapando por aquecimento causado pela radiação de raios X e ultravioleta extremo da estrela, mas observações seguintes não detectaram a mesma fuga. Para piorar a certeza do achado, análises feitas com o Telescópio Espacial James Webb, sucessor do Hubble operado por NASA, ESA e a agência espacial canadense, usando o instrumento NIRISS em quatro trânsitos observados, também não reproduziram o sinal de absorção de hélio relatado nas observações feitas da Terra. Ou seja: o fenômeno existe, mas ainda não dá pra cravar sua causa nem sua regularidade.

O que é hipótese — e ainda não tem comprovação

A parte que viralizou é a mais frágil cientificamente: a ideia de que a perda de hélio poderia estar associada a algum tipo de atividade biológica. Não há, até agora, nenhuma evidência de vida alienígena no LHS 1140b — isso é hipótese especulativa, não um resultado de pesquisa. O que os cientistas de fato sustentam é que, abaixo dessa camada instável de hélio, o planeta pode ter uma atmosfera secundária rica em espécies mais oxidantes, com água e outros compostos retidos em altitudes mais baixas, próximas à superfície. Essa composição ainda não foi determinada com precisão.

O astrônomo Joe Willis, da Universidade de Victoria, no Canadá, resumiu o cenário: o próximo passo decisivo depende de novas observações do JWST, com mais seis trânsitos já selecionados, que devem tentar mapear com mais precisão os gases presentes na atmosfera do planeta — e só então será possível avaliar, com mais segurança, se há algo digno de ser chamado de bioassinatura.

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