
Helion recebe US$ 225 milhões para criar chips que podem dobrar energia da fusão
A startup de fusão nuclear Helion garantiu US$ 225 milhões — entre verba federal e investimento privado — para desenvolver semicondutores próprios. A empresa projeta que a tecnologia pode dobrar a potência de suas usinas, mas o avanço não chegará a tempo do contrato com a Microsoft, previsto para 2028.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Pra escala humana: US$ 225 milhões é o tipo de cheque que normalmente financiaria uma rodada inteira de uma startup de tecnologia madura — aqui, ele vai inteiro para resolver um único problema de engenharia: fazer um chip perder menos energia na hora de converter o calor da fusão nuclear em eletricidade útil.
O que foi confirmado
Foto: reprodução/techbuzz.ai
A Helion — startup americana que tenta ser a primeira do mundo a gerar eletricidade comercial a partir de fusão nuclear — anunciou a captação de US$ 225 milhões para acelerar o desenvolvimento de semicondutores de alta tensão próprios. Segundo a reportagem da TechCrunch e documentos cruzados com outras coberturas do setor, o valor é composto por duas partes: US$ 175 milhões vêm de uma carta de intenção com o Departamento de Comércio dos EUA, via recursos do CHIPS Act, e os outros US$ 50 milhões são de um novo aporte privado.
Do total, mais de US$ 100 milhões serão destinados a pesquisa e desenvolvimento de semicondutores e embalagem avançada em instalações no estado de Washington, enquanto cerca de US$ 80 milhões vão para um programa de desenvolvimento de ferramentas, design e processos em Vermont, em parceria com a fabricante de chips GlobalFoundries. Com esse novo aporte, a Helion mantém a posição de segunda startup de fusão nuclear mais financiada do mundo, com mais de US$ 3,2 bilhões captados ao longo de sua história.
Também é fato confirmado que a Helion tem um contrato firmado para fornecer eletricidade à Microsoft a partir de 2028, usando sua usina Orion — a primeira planta comercial da empresa, com capacidade-alvo de 50 megawatts após um período de ramp-up.
O que ainda é hipótese
A grande promessa por trás do investimento é uma projeção, não um resultado garantido: segundo o CEO da Helion, David Kirtley, os semicondutores atuais perdem entre 5% e 10% da eletricidade gerada no processo de conversão direta de energia da fusão. Em declaração citada pela TechCrunch, Kirtley afirmou que, se essa perda for cortada pela metade, o efeito prático seria dobrar a potência útil extraída do mesmo sistema de fusão.
Vale destacar que o próprio executivo reconheceu que essa pesquisa não deve avançar a tempo de equipar a usina Orion — ou seja, o contrato com a Microsoft para 2028 segue como estava. Os ganhos de eficiência, se confirmados, devem beneficiar apenas usinas futuras da empresa, ainda sem cronograma definido.
Por que isso importa
Se a aposta da Helion se concretizar, a nova linha de semicondutores de alta tensão pulsada seria a primeira do tipo fabricada em território americano, com aplicações que vão além da fusão — incluindo tratamento de água, manufatura, medicina e defesa, segundo a empresa.
Atualização (23/10, 19:17): A Commonwealth Fusion Systems, startup mais financiada do setor de fusão nuclear, ganhou aporte do Department of Commerce para desenvolver semicondutores resistentes ao ambiente extremo dos reatores. O dinheiro deve financiar eletrônica de potência e geradores de radiofrequência usados nos magnetos supercondutores.