
Hochul quer IA 'menos má', freia data centers e mira armas 3D
Em entrevista ao podcast Decoder, a governadora de Nova York defendeu regras mais duras para IA, explicou a moratória contra novos data centers e respondeu ao ativista Cody Wilson sobre armas impressas em 3D.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Uma governadora, três dores de cabeça tecnológicas
Imagine sentar para conversar sobre inteligência artificial e, no espaço de uma hora, ter que explicar por que barrou a construção de data centers, por que sua conta de luz não para de subir e por que um ativista está tentando furar a lei de armas do seu estado usando um truque de arquivo digital. Foi mais ou menos isso que aconteceu com Kathy Hochul, governadora de Nova York, em entrevista ao podcast Decoder, do site americano The Verge.
"Menos má": o recado para o Vale do Silício
Foto: reprodução/ny1.com
Sobre inteligência artificial, Hochul não pediu para parar o desenvolvimento — pediu para melhorar o comportamento. Em bom português: ela cobrou das empresas de IA menos arrogância e mais responsabilidade, na linha de que big techs agem como se pudessem fazer o que quiserem só porque são grandes demais para serem contestadas. Sua proposta é regulação inteligente, não uma cruzada contra a tecnologia — algo como trocar o freio de mão por um cinto de segurança: a ideia não é impedir o carro de andar, é impedir que ele mate alguém no caminho.
A pausa nos data centers e o que vem depois
Em julho de 2026, Hochul assinou uma moratória de um ano proibindo a construção de novos data centers hyperscale (os gigantescos, que consomem energia como uma cidade pequena) no estado — a primeira medida desse tipo em todo o país, segundo cobertura da NY1 e da CNBC. A justificativa é dupla: dar tempo para o estado estudar o impacto ambiental dessas instalações e conter a escalada nas contas de luz dos moradores, que já subiram significativamente nos últimos anos com a explosão da demanda por energia da IA. Quando a moratória expirar, a aposta de Hochul não é prorrogar a proibição indefinidamente, mas dar às comunidades mais ferramentas de negociação — na prática, moradores e prefeituras terão mais poder de barganha antes que qualquer nova obra saia do papel.
O duelo com Cody Wilson: "vou ficar à frente dele"
O momento mais tenso da entrevista envolveu Cody Wilson, o ativista que ficou famoso por imprimir a primeira arma de fogo em 3D. Nova York tem uma lei que obriga impressoras 3D a bloquear a fabricação de armas, usando uma espécie de "impressão digital" (hash) que reconhece esses arquivos. Wilson anunciou uma técnica batizada de "Hochulization" — uma provocação direta à governadora — que altera esse hash para enganar o sistema de bloqueio, permitindo imprimir a arma sem ser detectado.
Hochul respondeu no ar: "tell Cody I will get ahead of him" — digam a Cody que vou ficar à frente dele. Ela reconheceu que não dá para estar sempre um passo adiante de quem burla a lei de propósito, mas defendeu o histórico de segurança do estado, citando as baixas taxas de homicídio por arma de fogo em Nova York. É o clássico embate entre segurança pública e liberdade tecnológica: de um lado, o estado tentando fechar brechas regulatórias; do outro, um ativista que trata cada nova trava como um desafio técnico a ser quebrado.
A entrevista também passou pelas câmeras de leitura de placas da Flock, tema que já divide opinião entre eficiência policial e vigilância excessiva.