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Smart Cities26 de set. de 2026, 16:39

Holanda testa Linux no governo e reacende debate sobre soberania digital na Europa

Projeto DAWO usa o NixOS, distribuição Linux conhecida pela configuração reprodutível de sistemas, em computadores de oito municípios holandeses. Iniciativa segue movimento que já levou Dinamarca, França e Suíça a testar alternativas ao Windows e ao Microsoft 365.

Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities

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Um piloto que nasce da desconfiança

Se você é cidadão holandês e usa serviços públicos digitais, talvez ainda não perceba, mas o computador do funcionário que te atende pode estar rodando Linux nos próximos anos. O governo dos Países Baixos deu início ao projeto DAWO (Digitaal Autonome Werkomgeving Overheid, ou Ambiente de Trabalho Digital Autônomo do Governo), que testa o NixOS — distribuição Linux que permite configurar e replicar sistemas de forma padronizada e reprodutível — como substituto do Windows em máquinas públicas.

O gatilho não foi só técnico. Em 2025, sanções dos Estados Unidos contra a Corte Penal Internacional levaram a Microsoft a cortar serviços ao procurador-chefe do tribunal, sediado justamente em Haia. Para Haia, o episódio virou símbolo do risco de depender de nuvens e sistemas operacionais controlados por empresas estrangeiras sujeitas a decisões políticas de outros países.

Foto: reprodução/tek.sapo.pt

Quem toca o projeto e em que escala

A coordenação está associada ao Ministério do Interior e Relações do Reino (BZK), com execução dividida entre três prestadores de TI do governo central: SSC-ICT, DICTU e DUO-ICT. Na prática, oito municípios participam de um piloto organizado pela Associação de Municípios Holandeses (VNG), rodando o novo ambiente em notebooks mais antigos — inclusive máquinas que já não atendem aos requisitos de hardware do Windows 11.

O projeto ganhou caráter oficial em julho de 2025, por diretiva da Comissão Interdepartamental para Operações de Negócios do Governo, e a primeira versão estável é esperada só para 2027. Ou seja: ainda não há data para uma eventual troca em massa, e tampouco foram divulgados valores públicos do investimento — questão que qualquer contribuinte deveria cobrar antes de comemorar ou criticar a iniciativa.

A Holanda não está sozinha

O movimento ecoa decisões recentes em outros países europeus. A Dinamarca já migrou parte de sua administração pública do Windows e Microsoft 365 para Linux e LibreOffice entre junho e novembro de 2025. Na França, a Direção Interministerial do Digital anunciou a adoção de estações Linux nos próprios computadores, dentro de um plano que prevê substituir ferramentas como Teams e Zoom para 2,5 milhões de servidores até 2027. A Suíça, por sua vez, testa alternativas de código aberto em 3 mil computadores e projeta substituir o Microsoft 365 pelo openDesk até outubro de 2026 nas Forças Armadas.

O que falta explicar ao cidadão

Experiências assim já mostraram, em cidades e países diferentes, que migração de sistema não é só trocar ícone na tela: envolve treinamento de servidores, suporte técnico, compatibilidade com sistemas legados e, principalmente, transparência sobre custos. Falta ainda esclarecer quem vai auditar o avanço do DAWO, quais indicadores medirão o sucesso do piloto e como o cidadão poderá acompanhar se a promessa de soberania digital vem, de fato, acompanhada de economia e segurança — e não apenas de um novo fornecedor a monitorar.

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