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IA19 de set. de 2026, 11:00

Hollywood ignora alarme existencial da IA e investe pesado na tecnologia

Enquanto o Vale do Silício soa alarmes sobre a IA "destruir a humanidade", grandes estúdios preferem o silêncio e seguem investindo bilhões na tecnologia. Sindicatos de atores e roteiristas pedem que o público olhe para os danos concretos que já estão acontecendo.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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O silêncio dos estúdios diz mais que qualquer comunicado

Sempre que dou aula sobre ética em IA, uso a mesma imagem: é como avisar que o prédio pode desabar daqui a vinte anos enquanto alguém já está caindo pela escada quebrada agora. Pois foi essa a contradição que o site americano The Verge escancarou ao perguntar a Disney, Netflix, Amazon e Lionsgate, estúdio por trás de franquias como Jogos Vorazes e John Wick, o que pensam sobre os recentes alertas do setor de tecnologia sobre o risco existencial da inteligência artificial. Resultado: nenhuma delas respondeu.

O silêncio é revelador porque essas mesmas empresas não têm nenhum pudor em investir pesado na tecnologia. A Netflix pagou 587 milhões de dólares pela InterPositive, startup de IA para cinema cofundada pelo ator e diretor Ben Affleck, e o codiretor-executivo da plataforma, Ted Sarandos, já confirmou que fluxos de trabalho com IA generativa foram usados em cerca de 300 títulos do catálogo. A Lionsgate, por sua vez, investiu na Runway, empresa de vídeo por IA, e o Google apostou na A24, estúdio independente conhecido por filmes autorais. Ou seja: em bom português, é o clássico "façam o que eu digo, não o que eu faço".

Sindicatos pedem foco no que já dói

Do outro lado do microfone estavam o SAG-AFTRA, sindicato que representa atores e dubladores americanos, e o WGA East, sindicato de roteiristas da Costa Leste dos Estados Unidos. As entidades, que protagonizaram greves históricas em 2023 justamente por causa da IA, disseram algo parecido com "já temos proteções, olhem para os danos reais". Na prática, isso significa perda de emprego, uso de réplicas digitais de atores sem consentimento adequado e a produção de desinformação — problemas concretos, mensuráveis, que já afetam quem trabalha em set de filmagem hoje.

Duas verdades que não se anulam

Nenhum dos dois lados está necessariamente errado. Um risco de longo prazo não cancela um risco de curto prazo, e vice-versa. Mas o episódio mostra como o debate público sobre IA muitas vezes é sequestrado pela pauta mais espetacular — o fim do mundo — enquanto o cotidiano de quem já sente o impacto da automação fica em segundo plano. Para o espectador brasileiro, que assiste a essas produções no streaming todos os dias, entender essa engrenagem ajuda a ler com mais critério tanto os discursos apocalípticos quanto os relatórios de sustentabilidade das próprias empresas de tecnologia.

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