
Hubble flagra queda na formação de estrelas em Andrômeda
Estudo com o Hubble mostra que Andrômeda produz estrelas num ritmo cada vez menor há 500 milhões de anos, e a galáxia satélite M32 é a principal suspeita — mas ainda não a culpada confirmada.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagina uma galáxia inteira "sem fôlego"
Andrômeda, a galáxia espiral vizinha mais próxima da Via Láctea, está a cerca de 2,5 milhões de anos-luz da Terra — luz que sai de lá hoje só chega aqui daqui a 2,5 milhões de anos. É nesse gigante que astrônomos flagraram algo parecido com um cansaço cósmico: a produção de novas estrelas vem caindo de forma constante nos últimos 500 milhões de anos, com um tombo ainda mais acentuado nos últimos 40 milhões de anos.
O que os dados confirmam
Foto: reprodução/science.nasa.gov
Usando o telescópio espacial Hubble, uma equipe liderada por Tobin Wainer, da Universidade de Washington, mapeou cerca de 200 milhões de estrelas individuais em dois terços do disco de Andrômeda, publicando os resultados em 27 de julho de 2026 no The Astrophysical Journal. O trabalho contou com Ben Williams e Zhuo Chen (também de Washington) e Raja GuhaThakurta (UC Santa Cruz), com dados dos levantamentos PHAT e PHAST do próprio Hubble.
Os números são concretos: há cerca de 500 milhões de anos, Andrômeda convertia gás e poeira em estrelas novas numa taxa equivalente a uma massa solar por ano. Há 40 milhões de anos, isso já tinha caído pela metade. Hoje, a taxa está em torno de um quinto de massa solar por ano — uma queda acentuada e sustentada, medida estrela por estrela, não por estimativa indireta.
O que ainda é hipótese
Foto: reprodução/washington.edu
Aqui a ciência é mais cautelosa. Os pesquisadores notaram que, numa região a cerca de 16 mil anos-luz do centro de Andrômeda — perto de onde fica a galáxia satélite M32 —, a queda na formação estelar é ainda mais acentuada e parece ter começado há uns 60 milhões de anos. É tentador ligar os pontos e culpar a interação gravitacional entre as duas galáxias pelo esfriamento geral, mas os próprios autores evitam essa afirmação categórica.
Na citação usada por Wainer: "Não podemos afirmar explicitamente que estamos observando uma redução na formação estelar por causa da M32. Mas ela está bem ali, e é, sem dúvida, a principal suspeita."
Por que isso importa
Entender por que uma galáxia "desacelera" ajuda a explicar o próprio futuro da Via Láctea, que um dia vai colidir com Andrômeda. Mapear estrela por estrela — algo que só o Hubble consegue fazer com essa resolução numa área tão grande — funciona como um raio-X do passado galáctico: cada estrela é um registro fóssil de quando e como se formou. Por enquanto, o veredito é parcial: a desaceleração é fato observado; a M32 como vilã, ainda é a suspeita mais forte, não a culpada confirmada.