
IA clona piadas de comediantes reais no Instagram para vender OnlyFans
Perfis com personagens gerados por inteligência artificial reproduzem shows de stand-up de comediantes de verdade e usam a audiência conquistada para vender assinaturas no OnlyFans e no Fanvue. Entenda o esquema e como se proteger.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
Contas no Instagram estão usando personagens gerados por inteligência artificial para reencenar, quase na íntegra, piadas e rotinas de stand-up escritas por comediantes reais. Um dos casos mais citados é o do perfil "Tiffany Sloane", uma personagem sintética que começou a publicar em 11 de setembro e, em cerca de três semanas, já somava mais de 375 mil seguidores e 124 vídeos, segundo levantamento do Canaltech e do site americano Gizmodo. Os vídeos recriam o texto, os gestos e até a roupa de apresentações reais, trocando apenas o rosto e o corpo por uma versão artificial.
A motivação é comercial: o perfil usa a audiência conquistada com o material roubado para direcionar seguidores a páginas pagas no OnlyFans e no Fanvue, plataformas de assinatura por conteúdo exclusivo usadas majoritariamente por criadores adultos. Outro perfil identificado pela reportagem, com cerca de 180 mil seguidores, seguia o mesmo roteiro e levava o público ao Fanvue. Em nenhum dos casos a bio do Instagram informa que o conteúdo é gerado por IA ou copiado de terceiros.
Foto: reprodução/gizmodo.com
Quem é afetado
Comediantes como George Brett Olson, Olivia Carter e Sarah Purdum reconheceram suas próprias piadas, trejeitos e até figurinos reproduzidos nesses vídeos sintéticos, sem crédito ou autorização. Segundo o relato, Olivia Carter chegou a parar de publicar material novo nas redes para não alimentar os perfis que replicam seu trabalho, e os comediantes afetados têm enfrentado dificuldade para conseguir a remoção das contas no Instagram.
O problema também afeta quem segue esses perfis sem saber: os seguidores consomem conteúdo apresentado como se fosse autêntico e, ao clicar nos links de bio, são levados a assinar páginas pagas administradas por quem lucra com material roubado. Tanto o OnlyFans quanto o Fanvue têm políticas que exigem identificação clara de conteúdo sintético e proíbem o uso enganoso de personagens de IA, com risco de remoção ou suspensão das contas que descumprirem a regra — mas a fiscalização tem sido lenta diante do volume de perfis.
O que fazer agora
Não há como o público eliminar esse tipo de golpe sozinho, mas dá para reduzir o risco de ser enganado ou de ajudar a monetizar conteúdo roubado:
- Desconfie de perfis de "comediantes" com crescimento muito rápido de seguidores e pouco histórico de publicações antigas;
- Antes de assinar qualquer página paga vinculada a um perfil de humor, pesquise o nome do criador e veja se ele tem presença verificável fora das redes (shows, especiais, outras mídias);
- Preste atenção a sinais de IA generativa, como movimentos de boca ou de mãos dessincronizados, texturas de pele muito lisas e cortes de vídeo abruptos;
- Se reconhecer uma piada ou rotina de um comediante que você já acompanha sendo usada por outro perfil, denuncie a conta diretamente no Instagram por violação de direitos autorais ou personificação;
- Evite seguir ou interagir com perfis suspeitos — engajamento, mesmo negativo, ajuda o algoritmo a dar mais alcance ao conteúdo.
O caso reforça um padrão já visto em outras frentes da IA generativa: personagens sintéticos usados para captar audiência rapidamente e monetizar esse público em plataformas pagas, muitas vezes às custas do trabalho de terceiros e sem transparência para quem consome o conteúdo.