
IA deixa o trabalho mais pesado justamente para quem mais a domina
Pesquisa da Wellhub mostra que profissionais que mais usam IA no Brasil relatam mais carga de trabalho e burnout do que iniciantes, contrariando a promessa de produtividade. O fator decisivo parece ser a clareza das políticas internas sobre a tecnologia.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
A ferramenta que promete alívio e entrega sobrecarga
Se você imaginava que dominar o ChatGPT ou qualquer outro assistente de IA ia sobrar tempo livre no fim do expediente, a pesquisa Panorama do Bem-Estar Corporativo 2027, da Wellhub (empresa de benefícios corporativos de bem-estar, antiga Gympass), traz um dado que contraria o senso comum. No Brasil, 37% dos profissionais classificados como "avançados" no uso de IA afirmam que a tecnologia aumentou sua carga de trabalho — contra apenas 13% dos iniciantes. O levantamento ouviu mais de 5 mil profissionais em dez países, com 500 a 505 respondentes por país, entre 12 e 19 de junho de 2026.
Por que saber mais gera mais trabalho, não menos
Foto: reprodução/mundorh.com.br
A explicação tem uma lógica parecida com a do colega que conserta computador em casa: quem mostra que sabe mexer vira o suporte técnico não oficial do prédio inteiro. É o que a pesquisa flagra também no ambiente corporativo — 80% dos usuários avançados em IA no Brasil dizem que passaram a orientar colegas sobre as ferramentas. Em bom português: virou plantão informal. Quanto mais competência a pessoa demonstra, mais a empresa (e os colegas) empurram demanda extra para cima dela, sem necessariamente aliviar o restante da função. O resultado aparece na saúde mental: 23% dos profissionais avançados relatam sintomas de burnout diariamente, quase o dobro dos 11% registrados entre os iniciantes.
O outro lado: a promessa ainda existe, mas depende de regra clara
Seria simplista concluir que IA é só fardo. A mesma pesquisa mostra que o problema não é a tecnologia em si, mas a ausência de regras. Entre quem trabalha em empresas com política clara e bem comunicada sobre uso de IA, cerca de 80% se sentem resilientes diante das mudanças no trabalho — número que despenca para algo em torno de 37% entre quem não conhece nenhuma diretriz da empresa, segundo dado complementar levantado pelo Mundo RH sobre o mesmo estudo. Ou seja, a ferramenta amplifica o que já existia: onde há gestão de expectativas, o profissional absorve a IA como ganho; onde não há, ela vira sobrecarga disfarçada de modernização.
Um padrão que não é só brasileiro
O fenômeno também aparece fora do Brasil. Reportagem da revista Fortune, de junho de 2026, mostra que os profissionais de alto desempenho — justamente os que lideram a adoção de IA e treinam os demais — são os mais vulneráveis ao esgotamento, e que empresas já tratam a retenção desse grupo como prioridade de RH. A questão que fica para quem está pensando em virar referência de IA no escritório é simples: a tecnologia só cumpre a promessa de aliviar a rotina quando a empresa decide, de fato, redistribuir o tempo que ela economiza — e não empilhar mais uma tarefa em cima de quem já entendeu como ela funciona.