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IA19 de ago. de 2026, 13:00

IA invade o Congresso dos EUA e sobrecarrega quem escreve as leis

Consultores legislativos da Câmara dos EUA relatam alta de até 70% nos projetos de lei rascunhados com ChatGPT e Claude, muitos com erros de redação e definições jurídicas incorretas. O órgão responsável por revisar os textos já testa sua própria IA para tentar conter o problema.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Quando o estagiário é um chatbot

Imagine um cartório que, do nada, passa a receber 70% mais escrituras para registrar — e boa parte delas com erros de português, cláusulas contraditórias e endereços que não existem. É mais ou menos o que está acontecendo no Congresso dos Estados Unidos, segundo reportagem do Politico replicada pelo Tecnoblog. O Escritório de Assessoria Legislativa da Câmara (OLC, na sigla em inglês), responsável por transformar ideias de deputados em texto de lei tecnicamente válido, viu o volume de pedidos de revisão saltar até 70% em relação a 2025. A causa: cada vez mais gabinetes parlamentares usam versões básicas do ChatGPT e do Claude para rascunhar projetos de lei antes de mandá-los para revisão.

O problema não é só volume, é qualidade

Se fosse apenas mais trabalho, seria administrável. O que preocupa os consultores é a natureza dos erros: alucinações típicas de IA generativa, definições jurídicas incompletas e falta de profundidade técnica. Um exemplo ilustra bem o risco — um texto gerado por IA definiu "estado" de um jeito que poderia excluir Washington DC e nações indígenas de um programa federal, uma confusão que um consultor humano dificilmente cometeria. Wade Ballou, que chefiou o OLC até 2024, resume a limitação com uma analogia direta: a IA não consegue determinar se uma verba deve ser um crédito fiscal, uma dedução, uma isenção ou uma doação — decisões que exigem julgamento jurídico, não só fluência de texto.

Mais tempo consertando do que escrevendo

O efeito colateral é irônico: em vez de acelerar o trabalho legislativo, a IA está atravancando. Consultores relatam gastar mais tempo corrigindo rascunhos malfeitos do que levariam para escrever o projeto do zero. É como revisar uma redação cheia de erros de digitação e argumentos capengas — às vezes dá menos trabalho jogar fora e recomeçar.

A resposta: combater IA com IA

Do outro lado do debate está a promessa de eficiência: ferramentas de IA podem, em tese, agilizar rascunhos e democratizar o acesso de gabinetes menores a texto legislativo mais elaborado. O próprio OLC parece reconhecer isso — em vez de proibir a tecnologia, desenvolveu a Comparative Print Suite, um sistema próprio que compara o novo projeto com a legislação já existente para sinalizar erros e mudanças, ajudando a enxergar inconsistências em vez de simplesmente confiar no texto gerado. É um meio-termo prudente: usar IA como lupa de revisão, não como autora da lei. Fica a lição para qualquer setor que lide com texto técnico sensível — de contratos a laudos médicos: a IA generativa acelera o primeiro rascunho, mas a responsabilidade final continua sendo humana.

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