
IA nos estudos: relatório da OCDE liga uso diário a notas piores
Levantamento do PISA 2025, da OCDE, mostra que estudantes que usam IA todo dia para tarefas escolares tiram notas menores em ciências — mas quem usa com moderação e de forma crítica pode até se sair melhor.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O que a OCDE descobriu
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade que reúne países ricos e organiza avaliações educacionais globais) acaba de divulgar os resultados do PISA 2025 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, prova aplicada a jovens de 15 anos em dezenas de países). E a notícia não é boa para quem terceiriza a lição de casa para um chatbot: estudantes que usam IA quase todo dia para tarefas específicas, como redigir textos, tiraram em média 481 pontos em ciências, contra 509 pontos de quem nunca ou quase nunca recorre à ferramenta. Uma diferença de 28 pontos que, ajustada por nível socioeconômico, equivale a cerca de um ano e meio de aprendizado perdido. O levantamento ouviu mais de 760 mil estudantes em 91 países, a maior amostra já registrada pelo programa.
Pense assim: é como se o aluno emprestasse a calculadora para fazer a prova de tabuada. No curto prazo funciona, mas o músculo mental que deveria estar sendo treinado simplesmente não é exercitado.
Nem tudo é preto no branco
Aqui entra a parte que costuma escapar das manchetes mais alarmistas. O próprio relatório mostra que o efeito não é uniforme. Estudantes que usam IA de uma a duas vezes por semana — nem raramente, nem todo santo dia — tendem a superar tanto quem usa pouco quanto quem usa diariamente. E quando o uso é voltado a "me ajudar a aprender", em vez de simplesmente entregar a tarefa pronta, os usuários semanais chegam a superar até quem nunca toca em IA nenhuma.
Outro dado relevante: entre os estudantes que usam IA todos os dias, as notas em ciências sobem 13 pontos — equivalente a mais de meio ano de ensino — quando os professores pedem, de forma consistente, que a turma critique o que a IA produziu. Ou seja, o problema não parece ser a ferramenta em si, mas o hábito de aceitar a resposta pronta sem questionar.
O recado da OCDE
Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, resumiu o raciocínio por trás dos números: aprendizado não acontece pelo simples consumo de conteúdo, mas por aquilo que ele chama de "luta cognitiva produtiva" da mente com material novo. Em bom português: é preciso suar a camisa mental para o conhecimento grudar. Por isso, defende ele, a IA deveria funcionar como andaime — um apoio temporário que sustenta a construção — e não como muleta, que a pessoa nunca larga.
O contexto geral também preocupa: o PISA 2025 registrou as piores médias já vistas pela OCDE em leitura, matemática e ciências, com a leitura caindo 28 pontos desde 2015. Não dá para culpar só a IA por essa queda, mas o relatório sugere que o modo como as escolas incorporam a tecnologia pode estar deixando esse quadro pior — ou, com o desenho certo de uso e supervisão pedagógica, ajudando a segurar a barra.