
Bots substituindo jogadores nos games estão dividindo opiniões
Do sucesso do PUBG, que viu o tempo de jogo subir 50% com bots de IA, ao Marvel Rivals, acusado de esconder oponentes falsos dos jogadores, o uso de NPCs controlados por IA em partidas online virou motivo de briga na comunidade.
Por Théo Ramos · Repórter de Games
O bot que ninguém pediu (mas todo mundo já jogou contra)
Se você jogou alguma partida rápida recentemente e sentiu que aquele inimigo "estranhamente burro" não parecia gente, pode não ter sido paranoia. A indústria de games está enchendo os lobbies multiplayer com NPCs controlados por IA, e a comunidade está dividida entre "isso salva o jogo" e "isso é enganação".
O case que deu certo: PUBG

Arte ilustrativa do game PUBG. (Imagem: Reprodução).
Em 2020, o PUBG começou a colocar bots de IA nas partidas, propositalmente um pouco menos habilidosos que o jogador mediano. O resultado, segundo o estudo acadêmico "Interlopers or Catalysts? Dissecting the Impact of Incorporating AI Players on Multiplayer Online Games", de Liangfei Qiu, Zhechao Yang e Qili Wang, foi direto: os jogadores passaram 50% mais tempo dentro do jogo e as partidas em equipe cresceram 28%. Faz sentido: iniciante que apanha toda partida desiste rápido; iniciante que consegue algumas eliminações contra um bot mais fraco fica, evolui e, principalmente, continua pagando por itens cosméticos.
Onde a coisa desanda: Battlefield 6 e Marvel Rivals

Arte ilustrativa do game Battlefield 6. (Imagem: Reprodução).
O problema é que nem todo mundo copiou a lição direito. Em Battlefield 6, os NPCs de IA foram espalhados por todos os modos, sem nenhuma opção de partida 100% humana, o que gerou reclamação em peso nos fóruns da EA — afinal, ninguém compra um jogo competitivo pra treinar contra máquina sem escolha.
Já o Marvel Rivals é o caso mais espinhoso. A NetEase manda quem perde duas partidas seguidas em Quickplay para lobbies recheados de bots — e, nesta temporada, passou a esconder a identidade desses bots, dando skins aleatórias e nameplates customizados para dificultar a identificação. Antes, dava pra perceber o bot de longe; agora não. O resultado foi revolta geral: jogadores chamaram a prática de "deceitful" (enganosa), e o assunto virou reclamação recorrente no Steam e em veículos como TheGamer e VideoGamer.
O consumidor no meio do fogo cruzado
Aqui mora o ponto que interessa pra quem só quer jogar sem ser trollado pela própria empresa: bot pra ensinar iniciante e evitar fila vazia, tudo bem — desde que avisado. Bot disfarçado de humano numa partida que você pensava ser competitiva é outra história, é publicidade enganosa disfarçada de feature. A diferença entre o sucesso do PUBG e a bronca do Marvel Rivals não é a tecnologia, é a transparência: um caso usou IA como ferramenta para atrair e reter novo jogador; o outro usou como muleta pra empurrar server cheio, escondendo isso de quem paga a conta.
Ao que tudo indica, o debate não vai esfriar tão cedo. Conforme mais estúdios apostam em NPCs indistinguíveis de humanos para preencher lobbies, a pergunta que fica é simples: você tem direito de saber contra quem (ou o quê) está jogando?