
IA pode engolir US$ 30 trilhões antes de provar que vale o investimento
Bain & Company calcula que o setor precisa faturar US$ 6 trilhões por ano até 2031 para justificar o boom de datacenters — faltam US$ 4,2 trilhões que ainda não existem. Anthropic já prevê gastar US$ 518 bilhões.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 30 trilhões é a aposta até 2050 — e ninguém sabe se o retorno vem
Nenhuma tecnologia nova na história recente concentrou tanto capital de uma só vez quanto a inteligência artificial está concentrando agora. Segundo projeção da consultoria PwC, os gastos acumulados com datacenters podem chegar a US$ 30 trilhões até 2050. Só nos Estados Unidos, o economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, estima US$ 9 trilhões investidos em IA entre 2025 e 2032. O problema é que a conta de quem vai pagar essa fatura — e com que retorno — ainda não fecha.
A lacuna de US$ 4,2 trilhões
Foto: reprodução/cnbc.com
Um estudo da Bain & Company, divulgado no final de setembro e replicado por Bloomberg e Reuters, é o número mais citado do momento: o setor de IA precisa gerar US$ 6 trilhões em receita anual até 2031 para justificar o volume de capital que está sendo despejado em datacenters, chips e capacidade computacional. Hoje, os serviços de IA para consumidores e empresas somam, na melhor das hipóteses, US$ 1,8 trilhão — ou seja, falta criar US$ 4,2 trilhões em receita nova, de segmentos que praticamente não existem ainda, como robótica autônoma, descoberta de fármacos e geração de energia. Bain estima ainda que o gasto anual só com infraestrutura de IA pode chegar a US$ 1,5 trilhão até 2031.
Quem está apostando mais alto
Entre as gigantes, Anthropic — rival direta da OpenAI na corrida por modelos de linguagem, hoje avaliada em torno de US$ 2 trilhões em seu processo de IPO — é o caso mais extremo: seu prospecto de oferta pública revela plano de gastar US$ 518 bilhões em nuvem, computação e infraestrutura nos próximos anos, mais de 100 vezes sua receita de 2025 (cerca de US$ 4,6 bilhões, segundo a Reuters). A empresa registrou perda líquida de US$ 42 bilhões em 2025 — embora boa parte, cerca de US$ 34 bilhões, seja um efeito contábil ligado a instrumentos financeiros, não caixa efetivamente queimado. Quase um quarto da receita da companhia vem de apenas dois clientes, sem contratos de longo prazo garantidos.
O teste da Nvidia e o rombo que ninguém cobre
A conta de retorno é ainda mais apertada quando se olha para o valuation da Nvidia, fabricante dos chips que sustentam toda essa infraestrutura: segundo análise citada pelo Olhar Digital, seria necessário um ganho de produtividade de 3% a 5% ao ano na próxima década para justificar o preço das ações da empresa — bem acima da projeção de 1,75% feita pelo Congressional Budget Office americano. Até 2032, seriam necessários US$ 3,55 trilhões em receita anual apenas para garantir um retorno de 10% sobre o capital investido em IA. Quem ganha, por ora, são os fabricantes de chips e os provedores de nuvem — Google, Amazon e Microsoft à frente —, que faturam com a venda de capacidade independentemente do resultado final dos modelos. Quem corre risco são as próprias empresas de IA, pressionadas a provar receita em escala inédita, e os investidores que compraram a narrativa sem um teto de avaliação visível.