
IA promete ajudar no clima, mas data centers já pesam como um país
Relatório da ONU projeta consumo de 945 TWh/ano em data centers de IA até 2030 — quase o triplo do gasto combinado de Nigéria, Paquistão e Bangladesh.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
As duas faces da mesma tecnologia
Existe um debate que ganhou força nos últimos meses: a inteligência artificial pode ser aliada ou vilã da crise climática — e, pelo visto, é as duas coisas ao mesmo tempo. Modelos de IA já ajudam a prever enchentes, otimizar redes elétricas e mapear escassez hídrica. O problema é o preço dessa ajuda: os data centers que treinam e rodam esses modelos consomem uma quantidade de energia comparável à de países inteiros.
Um relatório da UNU-INWEH (instituto da Universidade das Nações Unidas dedicado a água, meio ambiente e saúde) projeta que os data centers de IA vão consumir cerca de 945 terawatts-hora por ano até 2030 — em bom português, quase o triplo do que Nigéria, Paquistão e Bangladesh gastam juntos, três países com 650 milhões de habitantes somados. Em 2025, esse consumo já passava de 448 TWh: se fosse um país, a "nação dos data centers" seria a 11ª maior consumidora de eletricidade do planeta.
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
O lado da água
A conta não para na eletricidade. O mesmo relatório da ONU estima que, até 2030, a pegada hídrica dos data centers de IA pode se equiparar ao consumo doméstico anual de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana — água usada principalmente para resfriar os servidores.
Para Simon Stiell, chefe de clima da ONU, a indústria de IA é hoje uma "devoradora de energia". Já Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e coordenador do projeto Amazônia Sustentável, vai direto ao ponto: "instalar data centers para emitir gases de efeito estufa na geração de eletricidade não faz o menor sentido". Para ele, a saída não é frear a IA, mas exigir que os data centers rodem só com energia solar e eólica.
O que ainda falta responder
Nenhum desses relatórios resolve a pergunta mais prática: quem vai pagar a conta da transição energética dos data centers — as big techs, os governos ou os consumidores de eletricidade que dividem a mesma rede? Por enquanto, a resposta continua em aberto.