
IA promete destravar o COBOL, mas erro de centavo ainda assusta bancos
OpenAI anunciou em 19 de outubro saltos de precisão na migração automática de código COBOL, linguagem de 1959 que ainda move bancos, caixas eletrônicos e órgãos como o fisco americano. O avanço é real, mas especialistas alertam que provar que o sistema novo repete exatamente o comportamento do antigo continua sendo o maior desafio.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O dinossauro que ainda paga sua conta
Imagine um prédio centenário: a fachada foi reformada várias vezes, mas o encanamento interno é o original, de engenheiros que já morreram. Ninguém mexe nele porque funciona, e porque não existe mais planta baixa confiável. Esse prédio é, em boa medida, o sistema financeiro e governamental mundial, e o encanamento se chama COBOL (Common Business-Oriented Language), linguagem de programação criada em 1959. Segundo a IBM, o COBOL ainda processa mais de 40% dos sistemas bancários online, cerca de 80% das transações com cartão presencial e 95% das operações em caixas eletrônicos nos Estados Unidos. Órgãos como a Receita americana (IRS) também dependem de código dessa época, e auditorias do governo já apontaram risco por escassez de profissionais que ainda leiam essa língua morta da programação.
O que a OpenAI prometeu
Em 19 de outubro, a OpenAI anunciou ganhos expressivos na capacidade de seus modelos de migrar código legado, como COBOL, Fortran e Visual Basic, para linguagens modernas. O salto chama atenção: o modelo GPT-6.1 Sol passou de 5,4% de acerto para até 97,9% em testes de alta precisão, e o GPT-6 Astra atingiu 87,4% de aprovação média num benchmark com 20 linguagens, incluindo 72,1% em COBOL. A empresa também destacou redução de custo de uso da API. A OpenAI não está sozinha nessa corrida: em fevereiro, a Anthropic já havia apresentado o Claude Code como ferramenta para mapear dependências e documentar sistemas COBOL automaticamente, anúncio que fez as ações da IBM, tradicional guardiã desses mainframes, despencarem na bolsa no mesmo dia.
Tradução e dívida, não só tradução
Migrar COBOL não é como usar o Google Tradutor num cardápio. É mais como reformar o encanamento sem poder desligar a água do prédio, e sem o manual original. A própria OpenAI reconhece que migrações em produção ainda exigem revisão humana e testes extensivos, porque COBOL trata cálculos decimais de um jeito peculiar, e pequenas diferenças de arredondamento podem virar erro bilionário num extrato bancário. Estudos do setor mostram que cerca de 83% dos projetos de migração de dados falham ou explodem o orçamento, com ou sem IA.
Os dois lados da moeda
O otimismo é real: décadas de lógica de negócio, hoje reféns de poucos programadores em vias de aposentadoria, podem ganhar documentação e tradução em meses, não anos. O risco também é real: em sistemas regulados, o problema não é mais escrever o novo código, é provar que ele faz exatamente o que o antigo fazia, nem um centavo de diferença. A IA ajuda a ler a planta baixa perdida do prédio; mas ainda cabe a engenheiros humanos decidir se é seguro trocar o encanamento com a água ligada.