
IA tem um custo escondido: data centers já disputam água do Arizona
A fábrica de chips da TSMC no Arizona pode consumir até 17,29 milhões de galões de água por dia, reabrindo o debate sobre o custo hídrico da infraestrutura de IA.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O preço invisível da inteligência artificial
Todo chatbot, toda busca com IA e todo vídeo gerado por um modelo generativo passa, antes de chegar na tela do seu celular, por um galpão gigante de servidores — e esses galpões, em bom português, têm sede. No Arizona, a fábrica de chips da TSMC, maior fabricante de semicondutores sob encomenda do mundo e fornecedora de nomes como Apple e Nvidia, projeta consumir até 17,29 milhões de galões de água por dia (cerca de 65,4 milhões de litros) quando as três primeiras fases da planta estiverem em produção plena.
Pra escala humana
Foto: reprodução/theverge.com
Esse volume equivale ao consumo diário de mais de 50 mil casas em Phoenix, a capital do estado. Só a fábrica já em operação consome 4,75 milhões de galões por dia — e isso numa região do deserto americano que enfrenta estresse hídrico crônico, com rios historicamente dependentes de aquíferos que não se recarregam na mesma velocidade em que são usados.
O outro lado da história
A TSMC argumenta que já recicla cerca de 65% da água usada na planta — algo como 3,5 milhões de galões por dia, o equivalente ao consumo de 12 mil residências — e que esse índice deve subir com a maturidade da fábrica. Defensores da indústria também lembram que os data centers de IA da região de Maricopa, onde fica Phoenix, devem consumir juntos cerca de 900 milhões de galões de água doce só em 2025 — menos do que uma única fábrica de chips como a da TSMC.
O que ainda não está resolvido
Não dá pra separar nitidamente "culpa da IA" de "culpa dos chips": a mesma fábrica que produz os processadores dos data centers de inteligência artificial também abastece celulares, carros e eletrodomésticos comuns. O consumo não residencial de água em Phoenix subiu só 2 pontos percentuais desde 2021 — antes da chegada da TSMC —, hoje representando 24% do total da cidade. A pergunta que fica pros próximos anos é se a reciclagem vai crescer na mesma velocidade que a demanda por mais chips e mais data centers, ou se o Arizona vai ter que escolher entre fábricas e torneiras.