IA tenta destravar burocracia fragmentada nos EUA
Maricopa County e Washington D.C. lançaram assistentes de inteligência artificial para ajudar moradores a encontrar o departamento certo em meio a dezenas de agências. Os primeiros números mostram o que mais preocupa o cidadão: imposto sobre propriedade lidera as perguntas.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Um assistente de IA para achar o departamento certo
Quantas vezes você já ligou para uma prefeitura e foi transferido de setor em setor até desistir? É esse problema que duas administrações americanas tentam resolver com assistentes de inteligência artificial — e vale acompanhar de perto, porque o modelo pode inspirar (ou alertar) gestões brasileiras que também sofrem com estrutura fragmentada.
Em Maricopa County, no Arizona (região que engloba as cidades de Phoenix e Scottsdale), o condado lançou em 8 de junho de 2026 a assistente virtual "Mari", que funciona 24 horas por dia e direciona moradores entre mais de 50 departamentos. Aaron Judy, chefe de Inovação e Tecnologias Emergentes do condado, resume o problema que a ferramenta tenta resolver: tirar do cidadão a "carga cognitiva" de descobrir sozinho quem cuida do quê. A ferramenta foi construída com tecnologia da IBM e usa geocodificação da Esri, empresa americana de geoinformação, para dar respostas conforme a localização de quem pergunta.
Os números iniciais, levantados pelo veículo Route Fifty, mostram o que realmente preocupa o morador comum: 14% das mais de 12.500 perguntas recebidas até agora foram sobre imposto sobre propriedade, o assunto mais consultado — à frente até de dúvidas sobre adoção de animais e vagas de emprego no condado.
Washington também apostou na IA para abrir dados
Em Washington D.C., a aposta é o "DC Compass", ferramenta de IA generativa que roda dentro do portal de dados abertos da cidade em parceria com a Esri. Lançada em beta público em março de 2024, ela permite que qualquer pessoa pergunte em linguagem natural e receba mapas e análises que antes exigiam conhecimento técnico. "Você não precisa mais ser cientista de dados para analisar o catálogo de dados abertos de D.C.", resumiu Stephen Miller, diretor de tecnologia da cidade, no lançamento.
O que ainda falta responder
Nenhuma das fontes apuradas informa quanto os dois projetos custaram nem detalha os contratos com IBM e Esri — informação que deveria ser pública, já que se trata de dinheiro do contribuinte. Também não há, até agora, indicação de auditoria externa independente sobre o desempenho dessas ferramentas, algo que a experiência de outras cidades americanas mostra ser essencial antes de comemorar resultados. Fragmentação de serviço público é queixa universal — a pergunta que fica é se assistentes de IA resolvem o problema de raiz ou só maquiam uma estrutura que continua difícil de navegar.