
IA, trens a bateria e dúvidas sobre verba marcam conferência da APTA
A APTA Transform 2026, em Chicago, reuniu 13,7 mil participantes para discutir inteligência artificial, trens elétricos a bateria e saídas para o financiamento do transporte público nos EUA, em meio a déficits de receita e pressão inflacionária.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Chicago vira vitrine de tecnologia para o transporte público
A American Public Transportation Association (APTA), entidade que reúne operadores e fornecedores do setor de transporte público nos Estados Unidos, realizou entre 4 e 7 de outubro a conferência Transform & EXPO 2026, no McCormick Place Convention Center, em Chicago. O evento, que ocorre a cada três anos, reuniu cerca de 13,7 mil participantes e quase 700 expositores, segundo a APTA e o site Smart Cities Dive.
Para quem depende de ônibus e trens para ir ao trabalho todos os dias, a pergunta que fica é simples: essas novidades vão chegar ao transporte que a pessoa realmente usa, ou vão ficar restritas a projetos-piloto e metrópoles ricas dos EUA?
Foto: reprodução/smartcitiesdive.com
Trens a bateria: menos diesel, mas sem data para todo mundo
Um dos destaques concretos veio da própria Chicago. A Metra, agência de trens de passageiros da região metropolitana, encomendou oito trens FLIRT elétricos a bateria do fabricante suíço Stadler, com entrada em operação prevista para 2028, segundo o Streetsblog Chicago. Os trens, de estrutura leve em alumínio e cerca de 1 megawatt-hora de capacidade de bateria, vão rodar inicialmente na linha Beverly Branch do Rock Island District, em trechos sem eletrificação — reduzindo poluição por diesel e ruído.
É um avanço real, mas que serve de comparação direta com o Brasil: enquanto cidades como São Paulo e Rio ainda lutam para manter frotas de trens e ônibus funcionando com manutenção básica, nos EUA a discussão já é sobre bateria e zero emissão local. A dúvida que cabe ao usuário brasileiro — e também ao americano — é quem paga essa conta e se ela se traduz em passagem mais cara.
IA entra na manutenção e na informação ao passageiro
Segundo o Smart Cities Dive, expositores e palestrantes apresentaram ferramentas de inteligência artificial já em uso por agências de transporte, como manutenção preditiva de ferrovias, despacho automatizado de serviços sob demanda e micromobilidade, e informações em tempo real para passageiros. Fabricantes também lançaram novos modelos de ônibus elétricos destinados ao mercado americano, com planos de entrega até 2028.
A promessa é de operação mais eficiente e menos falhas — mas nenhuma das fontes consultadas detalhou custos de implantação ou quem fiscaliza o desempenho real desses sistemas depois da vitrine da feira.
Financiamento: o nó que ninguém resolveu em Chicago
O pano de fundo da conferência foi um "ambiente desafiador" para o transporte público nos EUA, marcado por pressão inflacionária, déficits de receita e disputas legais, conforme o Smart Cities Dive. Sessões específicas trataram de financiamento, parcerias e desenvolvimento orientado ao transporte como caminhos para sustentabilidade financeira de longo prazo. Prefeitos de cidades do Sun Belt e líderes de transporte de Chicago, Nova York e Seattle discutiram juntos essas saídas.
Um dado concreto de bastidor: a Northern Illinois Transit Authority (NITA) substituiu, em 1º de setembro, a antiga Regional Transportation Authority de Chicago, trazendo "novo financiamento estadual substancial" — segundo o Streetsblog Chicago — e ampliando a coordenação entre CTA, Metra e Pace. É o tipo de reforma institucional que o transporte público brasileiro, fragmentado entre municípios e sem fonte de receita estável, ainda não enfrentou de forma equivalente.