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IA20 de ago. de 2026, 10:40

IA venceu a resistência técnica, mas não a confiança das pessoas

Pesquisas recentes mostram que quanto mais IA se torna inevitável no dia a dia, mais os americanos desconfiam dela. Até líderes do setor, como o CEO da Anthropic, admitem que a indústria não cumpriu suas grandes promessas.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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O produto está em toda parte, mas o público não comprou a ideia

Há uma diferença, no fundo, entre usar algo porque não dá para escapar e gostar daquilo. É mais ou menos a relação de muita gente com o extrato bancário: todo mundo olha, ninguém aprecia. Uma reportagem do TechCrunch publicada nesta quarta-feira (19) argumenta que é exatamente isso que está acontecendo com a inteligência artificial. Ela se espalhou por buscadores, aplicativos de produtividade e assistentes de celular — só que a aceitação do público não acompanhou essa onipresença. Pelo contrário: encolheu.

O que dizem os números

Foto: reprodução/fortune.com

O retrato mais recente vem do Pew Research Center, que constatou que 52% dos americanos estão "mais preocupados do que animados" com o avanço da IA no cotidiano — um salto em relação aos 37% registrados em 2021. O detalhe que chama atenção é a virada entre os jovens: pela primeira vez, a maioria dos adultos com menos de 30 anos (55%) diz estar mais preocupada do que empolgada, justamente o público que a indústria tratava como terreno fértil para conquistar.

Outros levantamentos citados pelo TechCrunch reforçam o quadro. Uma pesquisa do Economist/YouGov feita em maio apontou que mais de 70% dos americanos acham que a IA está avançando rápido demais. Já uma sondagem da CNBC mostrou que a maioria dos entrevistados entre 18 e 34 anos não confia que os principais nomes do setor de IA vão "agir de forma responsável".

A autocrítica que vem de dentro do setor

O que torna a reportagem mais interessante é que a desconfiança não é só discurso de fora: ela ecoa dentro do próprio Vale do Silício. Dario Amodei, CEO da Anthropic, chamou o problema de "crise de confiança" e resumiu, em bom português, o que passa na cabeça do público: as pessoas acham que empresas e governos estão "tramando alguma nova forma de passar a perna nelas". Amodei foi além e fez a autocrítica: "a crítica mais precisa às empresas de IA, incluindo a Anthropic, é que ainda não entregamos as grandes promessas que fizemos de beneficiar o mundo".

Já Brian Chesky, CEO do Airbnb, atribui parte do problema a uma questão de narrativa, mas reconhece que falta entrega concreta: para ele, é preciso criar produtos que a pessoa comum use e diga "eu amo IA" — como um médico disponível a qualquer hora, algo que hoje ela não conseguiria pagar.

Dois lados, um impasse

De um lado, a indústria aposta que a solução é técnica: produtos melhores, casos de uso mais tangíveis, tempo para a confiança se consolidar — como aconteceu, décadas atrás, com a internet e os smartphones. Do outro, o ceticismo público parece menos ligado à tecnologia em si e mais a um mal-estar de fundo com as instituições que a controlam. Enquanto esse fosso não se fecha, ampliar o uso da IA e ampliar a aceitação dela seguem sendo, na prática, duas corridas diferentes.

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