
IA vira ferramenta de ataque misógino contra candidatas em 2026
Levantamento do MonitorA achou indícios de IA em 25% das imagens ofensivas contra 132 candidatas no X. Marina Silva, Sâmia Bomfim e Erika Hilton lideram os ataques.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Em bom português: o que a IA está fazendo aqui
Pense numa fábrica de memes que nunca dorme. É mais ou menos essa a imagem que o projeto MonitorA — um observatório de violência política de gênero nas redes, mantido pelo InternetLab (centro de pesquisa independente em direito e tecnologia), pelo Núcleo Jornalismo e pelo Instituto Democracia em Xeque — desenhou ao vasculhar o X (antigo Twitter) nas Eleições 2026. Em sua quarta edição desde 2020, o levantamento reuniu 11.137 imagens publicadas em 9.393 comentários nos perfis de 132 candidatas, em duas janelas de observação: de 16 a 24 de agosto, no lançamento das campanhas, e de 2 a 11 de setembro, logo depois da crise envolvendo o STF.
O que é fato e o que é interpretação
Dessas imagens, 660 foram classificadas como ofensivas — e é aqui que a IA entra na conta: 25% delas carregavam indícios de manipulação por inteligência artificial, com outros 9% caindo numa zona cinzenta, de difícil confirmação. O MonitorA divide o material em duas categorias: insultos com linguagem hostil mas sem apelo direto a marcadores de desigualdade (269 registros) e ataques que tentam deslegitimar a candidata com base em gênero, raça, sexualidade, deficiência ou religião (391 registros) — com destaque para conteúdo misógino (99 casos), ataques ao corpo (55) e transfobia (46). As mais visadas foram Marina Silva (Rede), com 125 registros ofensivos, Sâmia Bomfim (PSOL), com 111, e Erika Hilton (PSOL), com 109.
Os dois lados da história
Aqui vale uma distinção que o próprio estudo faz questão de separar: a IA, neste caso, não está sendo usada principalmente para enganar o eleitor com deepfakes realistas que parecem verdade. Ela está sendo usada como ferramenta de produção em massa — tornando mais barato e mais rápido fabricar charges, memes e montagens ofensivas que, antes, exigiam um editor de imagem com tempo disponível. É a mesma lógica de uma linha de montagem: a tecnologia não cria o preconceito, mas multiplica o volume de quem já queria atacar.
Por outro lado, é preciso cautela antes de gritar "fraude eleitoral por IA" a cada imagem estranha: o próprio levantamento reconhece margem de incerteza (os tais 9%) e evita apontar autoria individual dos ataques. O alarme aqui não é sobre eleitores enganados nas urnas — é sobre um ambiente mais hostil para mulheres que decidem disputar cargos públicos, o que, a longo prazo, mexe com quem topa ser candidata da próxima vez.