tech & talk
Ciência06 de out. de 2026, 21:29

INPE desenvolve sensores para mapear a maior falha do campo magnético da Terra

Pesquisadores do INPE trabalham em instrumentos capazes de medir, pela primeira vez em órbita baixa, as partículas que despencam sobre o Sul e o Sudeste do Brasil por causa da Anomalia Magnética do Atlântico Sul.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana

Imagine uma mancha invisível maior que o Brasil, flutuando sobre o Atlântico Sul, onde o escudo magnético que protege o planeta das partículas do Sol está visivelmente mais fino. É dentro dessa mancha — a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) — que pesquisadores do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o instituto brasileiro de pesquisa em ciência espacial e atmosférica) querem colocar um novo tipo de sensor em órbita.

O que está confirmado

Segundo reportagem da Revista Pesquisa FAPESP, publicada em 28 de setembro, e replicada pelo Olhar Digital, o projeto batizado Sama-Suite está na fase de requisitos: ainda não existe sensor construído, nem satélite definido para levá-lo ao espaço. A coordenação da parte de instrumentos é de Livia Ribeiro Alves, pesquisadora do INPE, que planeja testes em ambiente controlado — simulando detecção, comportamento eletrônico, temperatura e radiação — antes de qualquer voo real.

O objetivo declarado é medir o fluxo de elétrons que precipita sobre as regiões Sul e Sudeste do Brasil, algo que, segundo a reportagem, nenhum satélite de órbita baixa hoje em operação faz com esse nível de detalhe. A ideia é acompanhar recorrência, quantidade, tipo de partícula e localização desse despejo — dados úteis para previsão de clima espacial.

Dois candidatos aparecem como possíveis "carona" para os sensores: o CBERS, satélite da parceria tecnológica Brasil-China, e a missão Galileo, um telescópio solar. Nenhuma escolha foi fechada.

A AMAS em si é uma região de centenas de quilômetros de extensão sobre a América do Sul e o Atlântico Sul, onde o campo magnético terrestre é mais fraco que o normal. Isso permite que partículas carregadas, normalmente presas nos cinturões de radiação externos até serem precipitadas por fenômenos como as chamadas "ondas sibilantes" (whistler waves), penetrem mais profundamente na atmosfera — e cheguem mais perto dos componentes eletrônicos de satélites de telecomunicação e geolocalização.

O que ainda é hipótese ou está em aberto

A reportagem da Pesquisa FAPESP não traz, até o momento, números fechados sobre intensidade do campo em nanoteslas ou percentual de crescimento da área da anomalia — esses dados não constam nas fontes consultadas para esta matéria e não devem ser tomados como confirmados. Também não há ainda satélite escolhido, cronograma de lançamento ou confirmação de que o Sama-Suite efetivamente embarcará no CBERS ou no Galileo.

Por que isso importa

Na prática, a AMAS já é monitorada há décadas e está associada a perdas de sinal de GPS durante tempestades geomagnéticas fortes. Um sensor brasileiro dedicado a mapear esse fluxo de partículas, segundo a proposta do INPE, ajudaria engenheiros a blindar melhor os próprios satélites — inclusive os nacionais — contra o ambiente mais hostil da região.

inpeanomalia magnéticasatélitesclima espacialatlântico sul
Compartilhar