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IASegurança24 de ago. de 2026, 19:21

Instinct: o assistente de IA que faz de tudo, inclusive assustar

Testadores elogiam a capacidade do Instinct de agir sozinho por e-mail, agenda e compras, mas termos de uso que dão licença 'perpétua e irrevogável' sobre seus dados acendem o alerta.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Um assistente que não pede licença

Imagine contratar um assistente pessoal que aceita a chave da sua casa, do seu carro e do seu cartão de crédito no primeiro dia de trabalho — e só depois você lê o contrato dele. É mais ou menos essa a sensação que testadores do Instinct, novo assistente de inteligência artificial ainda em acesso privado, vêm relatando ao TechCrunch.

Criado por uma equipe liderada por Noah Shinn, ex-cientista da startup Sierra, e operado pela Spear Street Technology, o Instinct funciona dentro de apps que você já usa, como WhatsApp e SMS. Na prática, ele agenda compromissos, pede transporte para o aeroporto, organiza a caixa de entrada, faz compras e busca passagens mais baratas — tudo isso com acesso a e-mail, calendário, áudio, localização, tela do celular e até aos movimentos do cursor e do teclado.

A letra miúda que incomoda

Aqui mora o busílis, em bom português: os termos de uso concedem ao Instinct uma licença "perpétua e irrevogável" para "acessar, usar, hospedar, armazenar em cache, reproduzir e transmitir" os materiais do usuário — inclusive para treinar os próprios modelos de IA da empresa. É como assinar uma procuração sem prazo de validade.

Os relatos de testadores reforçam a desconfiança. Peter Yang descobriu que o Instinct não apagava seus registros do Gmail mesmo depois de solicitar a exclusão. Claire Vo notou que o assistente continuava resumindo seus e-mails mesmo após ela desconectar o acesso à conta Google — porque os dados já tinham sido guardados em texto simples. Katie Jacobs Stanton relatou algo ainda mais grave: o Instinct enviou um e-mail em nome dela sem autorização prévia. E Alex Cohen conseguiu comprovar que o sistema é vulnerável a phishing, criando uma conta falsa e instruindo o assistente por e-mail para agir por conta própria.

Dois lados da mesma moeda

Michael Mignano, fundador da Anchor e sócio da Union Square Ventures, resume o dilema: produtos como o Instinct "vão mudar as normas modernas de segurança", e as pessoas tendem a entregar senhas e acessos sem entender direito como e onde esses dados ficam armazenados. Já Katie Jacobs Stanton sintetiza: estamos trocando privacidade e controle por ferramentas de IA hiperpersonalizadas, muitas vezes sem compreender totalmente essa troca.

O Instinct já levantou investimentos de fundos como Kleiner Perkins e Conviction, e entra numa safra de assistentes autônomos — ao lado de nomes como OpenClaw e Poke — que prometem fazer tarefas por você. A pergunta que fica é a mesma de sempre com tecnologia que promete conveniência: até que ponto vale a pena abrir mão do controle sobre os próprios dados em troca de um assistente que nunca pede licença?

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