tech & talk
Ciência05 de set. de 2026, 15:19

Instituto Butantan pisa 40 mil vezes em jararacas e leva Ig Nobel 2026

Pesquisadores brasileiros venceram o Prêmio de Biologia do Ig Nobel 2026 por um estudo que tocou repetidamente cobras jararacas com uma bota protetora para identificar o que provoca picadas defensivas — trabalho que já havia sido retratado por uma revista científica em meio a controvérsia.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana: 40 mil toques em uma cobra peçonhenta

São mais toques do que a maioria das pessoas dá em uma porta ao longo da vida — só que nesse caso, cada um deles tinha o risco de terminar em picada. Foi assim que uma equipe de pesquisadores brasileiros, ligada ao Instituto Butantan, em São Paulo, garantiu o Prêmio de Biologia do Ig Nobel 2026, entregue na noite de 3 de setembro em Zurique, na Suíça, na 36ª cerimônia do prêmio.

O Ig Nobel é uma paródia bem-humorada do Nobel, organizada pela revista científica Improbable Research desde 1991, que celebra pesquisas que "primeiro fazem rir, depois fazem pensar". Nesta edição, dez categorias foram premiadas, incluindo Física (por um urinol que não respinga), Química (proteína do leite de barata com o triplo da energia calórica do leite de vaca) e Economia (evidências de que pessoas de classe alta roubam mais doces de crianças).

Foto: reprodução/retractionwatch.com

O que é fato: o experimento com jararacas

Os vencedores brasileiros — João Miguel Alves-Nunes, Adriano Fellone, Selma Maria Almeida-Santos, Carlos Roberto de Medeiros, Ivan Sazima e Otavio Augusto Vuolo Marques — tocaram, com uma bota de proteção, a cabeça, o meio do corpo e a cauda de jararacas (Bothrops jararaca) mais de 40 mil vezes ao longo de dois anos de pesquisa. O objetivo declarado era mapear quais variáveis (temperatura, horário do dia, parte do corpo tocada) aumentam ou diminuem a chance de uma picada defensiva — informação com potencial aplicação na prevenção de acidentes ofídicos, que afetam dezenas de milhares de pessoas por ano no Brasil.

Segundo o Instituto Butantan, nenhum animal sofreu ferimentos, sequelas ou morreu durante o estudo.

O que é controverso: a retratação

Aqui a história ganha uma camada extra. O artigo original, publicado na revista Scientific Reports, foi retratado em 2025 depois que o Comitê de Ética Animal do Butantan apontou que a aprovação concedida aos pesquisadores não cobria o uso do método de "pisar levemente" nem o uso de filhotes de jararaca — o protocolo aprovado previa o uso de um gancho herpetológico metálico para estimular as cobras, não contato direto com o pé. Todos os seis autores discordam publicamente da decisão de retratação, e a controvérsia é anterior ao Ig Nobel: o prêmio de 2026 foi concedido mesmo com o artigo formalmente retratado pela revista.

O que fica

O Ig Nobel não exige que o artigo premiado esteja em bom estado editorial — o critério é o impacto e o humor da pesquisa, não sua situação de publicação. Para o público brasileiro, fica o reconhecimento internacional a um grupo de cientistas do Butantan, ofuscado por uma disputa ética que a revista e os autores ainda não resolveram publicamente.

ig nobelinstituto butantanjararacaciência brasileiraprêmios científicos
Compartilhar