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IA24 de set. de 2026, 23:07

Japão exporta 50 toneladas de livros aos EUA; suspeita recai sobre IA

Livrarias japonesas relatam pedidos em massa e sem lógica temática, enquanto registros de exportação mostram mais de 50 toneladas de livros enviadas aos EUA desde o ano passado — e o destino provável são bancos de dados para treinar modelos de linguagem.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Pedidos que não fazem sentido — até fazerem

Imagine um sebo pequeno, acostumado a vender exemplares avulsos de filosofia ou direito, que de repente recebe encomendas fechadas de dezenas de livros por vez, sem qualquer padrão de assunto: um pouco de vida cotidiana do período Edo, um pouco de política de 30 anos atrás, um pouco de medicina. Foi o que passou a acontecer em livrarias de usados no Japão a partir de agosto, segundo reportagem da emissora japonesa NTV. Em bom português: alguém está comprando por atacado, não por interesse de leitura.

A pista que liga esses pedidos a um destino específico veio dos registros de exportação. Uma reportagem da NTV identificou que mais de 50 toneladas de livros japoneses foram enviadas aos Estados Unidos desde o ano passado por uma empresa ligada a uma das grandes distribuidoras de livros do país, todas classificadas genericamente como "JAPANESE BOOKS". O detalhe que chamou atenção dos lojistas: pedidos de contas diferentes, mas todos com o mesmo destino final no Japão — um centro de logística na província de Okayama — antes de seguir para fora do país.

Por que livros viram combustível de IA

A suspeita, replicada pelo Tecnoblog a partir da apuração japonesa, é que essas remessas alimentem o treinamento de modelos de linguagem. O processo é simples de explicar: livros físicos são desmontados, as páginas passam por scanners de alta velocidade e o texto digitalizado vira parte de bancos de dados usados para ensinar sistemas de IA a escrever, traduzir e responder perguntas. Depois de escaneado, o livro original muitas vezes é descartado — o valor não está mais no objeto, mas no texto que ele carrega.

A reportagem japonesa lembra que essa não seria a primeira vez que uma empresa do setor recorre a esse tipo de aquisição em massa: a Anthropic, uma das principais desenvolvedoras de modelos de IA e concorrente da OpenAI, já foi descrita como tendo comprado e digitalizado grandes volumes de livros para treinar seus sistemas, prática que virou objeto de disputas judiciais sobre direitos autorais nos EUA.

O outro lado da balança

Aqui vale a ponderação: nem todo pedido incomum é IA, e a origem exata dessas compras específicas no Japão ainda não foi confirmada por nenhuma empresa. Mas o volume, o padrão de destino único e o tipo de obra procurada — conteúdo denso, técnico, difícil de encontrar digitalizado — reforçam a hipótese. Para os sebos japoneses, pouco importa o motivo final: as vendas aumentaram. Para o debate sobre IA, fica mais um capítulo de uma pergunta ainda sem resposta legal firme: de quem é o texto depois que vira dado de treinamento?

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