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IACiência26 de set. de 2026, 16:40

Jensen Huang diz que IA vai causar 'dor' antes de salvar o clima

CEO da Nvidia comparou a inteligência artificial a uma cirurgia dolorosa que precisa ferir antes de curar, defendendo o uso de combustíveis fósseis enquanto a energia limpa não acompanha a demanda dos data centers.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Uma analogia com sabor de filme de vilão

Imagine seu médico dizendo: "vou te causar uma dor enorme agora, mas confie em mim, no fim você vai agradecer". É basicamente essa a lógica que Jensen Huang, CEO da Nvidia — a fabricante de chips que domina o mercado de hardware para inteligência artificial —, usou para explicar a relação entre IA e mudanças climáticas no podcast The Ezra Klein Show. Segundo reportagem do site The Verge, Huang afirmou que a inteligência artificial pode, sim, ajudar a combater o aquecimento global, mas só depois de "infligir uma enorme quantidade de dor e sofrimento".

A comparação que ele usou foi cirúrgica, literalmente: "É como uma cirurgia — para te salvar, eles precisam te cortar primeiro. Precisam infligir uma enorme quantidade de dor e sofrimento em você para depois poder salvá-lo", disse o executivo. A fala rendeu comparações incômodas com Thanos, o vilão de Vingadores que sacrifica metade do universo em nome de um bem maior — daí o apelido de "supervilão" dado pela reportagem original.

O lado do custo: combustível fóssil primeiro, energia limpa depois

Na prática, a "dor" a que Huang se refere é o consumo elétrico bruto dos data centers que treinam e rodam modelos de IA — boa parte dele ainda vindo de fontes sujas. Segundo a matéria da The Verge, o próprio CEO admitiu que, "nos próximos anos, infelizmente vamos ter que usar combustíveis fósseis, porque simplesmente não temos energia sustentável suficiente para fazer diferença". Um estudo citado por veículos que replicaram a reportagem — conduzido por pesquisadores da UC Riverside, Caltech e do Rochester Institute of Technology — estima até 1.300 mortes prematuras e mais de US$ 20 bilhões em custos de saúde pública até 2028 por causa da poluição do ar ligada à expansão da IA.

Críticos ouvidos por outros veículos, como a organização ambiental Greenpeace, vão na mesma direção: em protestos recentes contra a Nvidia em Taipei, ativistas argumentaram que comunidades locais carregam o peso da sobrecarga na rede elétrica e da poluição de carbono gerada pela "corrida da IA".

O lado da promessa: a solução também seria tecnológica

Do outro lado da balança está a aposta de que a própria IA vai se tornar a ferramenta que resolve o problema que ela ajuda a criar — otimizando redes elétricas, acelerando pesquisas em energia limpa e, segundo Huang já defendeu publicamente em outras ocasiões, sendo viabilizada por fontes como nuclear, eólica e solar no longo prazo. Diferentemente de outros executivos do setor, Huang também minimiza riscos existenciais da IA e é contra qualquer nova regulamentação para a indústria.

Fica então o dilema repassado ao público: aceitar a "dor" energética anunciada como preço de entrada para uma cura climática que, por ora, é promessa — não fato consumado.

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