
Joby voa 3.199 milhas sem piloto e mira mercado de defesa bilionário
A Joby Aviation completou o primeiro voo totalmente autônomo através dos Estados Unidos, um teste que reforça sua aposta em contratos militares além do táxi aéreo elétrico. A empresa, avaliada em cerca de US$ 6,15 bilhões, já gastou US$ 500 milhões em aquisições para sustentar essa guinada.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: 3.199 milhas sem mãos no controle
Um Cessna Caravan convertido cruzou os Estados Unidos de costa a costa com a tecnologia de autonomia da Joby Aviation, companhia americana avaliada em cerca de US$ 6,15 bilhões em bolsa e conhecida até aqui pelo projeto de táxi aéreo elétrico, sem que o piloto de segurança a bordo precisasse tocar nos comandos em nenhum trecho. O voo, batizado internamente como o primeiro totalmente autônomo do tipo no país, somou mais de 3.100 milhas (a companhia fala em 3.199 milhas) com decolagem, navegação e pouso supervisionados remotamente pela sede de autonomia da Joby, na Califórnia, e pela Base Aérea de Shaw, na Carolina do Sul, a distâncias de até 2.323 milhas do avião.
De onde vem a tecnologia
Foto: reprodução/techcrunch.com
A pilha de autonomia usada no voo tem origem na compra da divisão de autonomia da Xwing, startup americana de aviação autônoma incorporada pela Joby em 2024. Desde então, a empresa vem empilhando validações técnicas que miram um público mais amplo que o consumidor final: forças armadas, logística de defesa, transporte médico e resposta a desastres, mercados que dependem menos de aprovação regulatória para transporte de passageiros e pagam mais rápido.
Quem ganha: o pivô para defesa
O teste não é isolado. Em agosto, a Joby fechou a maior aquisição de sua história recente ao pagar US$ 500 milhões, em dinheiro e ações, pela Resonant Sciences, empresa americana de Ohio especializada em sistemas de radiofrequência e sensores, hoje parte de uma unidade de defesa dedicada dentro da companhia. Em 2025, a Joby já havia firmado parceria com a L3Harris Technologies, fabricante americana de sistemas e equipamentos de defesa, para desenvolver uma aeronave VTOL híbrida turbina-elétrica voltada a missões militares de baixa altitude, com opção de operação tripulada ou totalmente autônoma. A autonomia também recebeu um contrato de US$ 17 milhões da AFWERX, programa de inovação da Força Aérea dos Estados Unidos, que já havia bancado a entrega do primeiro táxi aéreo elétrico da empresa à Base Aérea de Edwards em 2023.
Quem fica de fora, por ora
O calendário de certificação para transporte comercial de passageiros segue mais lento que o de defesa, onde regras são mais permissivas para voo autônomo. Enquanto concorrentes do setor eVTOL concentram capital na corrida por certificação civil, a Joby amplia o leque de receita para contratos militares e de carga, um caminho que reduz a dependência de um único mercado, mas também dilui o discurso original de "táxi aéreo urbano" que sustentou boa parte do apetite de investidores pela ação nos últimos anos.